Entre junho e julho, a ARTIGO 19 Brasil e América do Sul participou da 59ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, realizada em Genebra, Suíça, fortalecendo sua atuação internacional em defesa da liberdade de expressão, proteção de jornalistas e participação democrática. 

Um dos principais marcos da agenda foi a atualização da resolução sobre segurança de jornalistas, adotada por consenso entre os Estados membros. A versão final do documento incorporou propostas elaboradas pela ARTIGO 19 em parceria com os escritórios internacional e do México, incluindo: 

  • Medidas de reparação jurídica para vítimas de SLAPPs (ações judiciais estratégicas contra a participação pública) e capacitação de agentes do Judiciário para lidar com esses casos; 
  • Responsabilização de empresas de tecnologia quanto ao respeito aos direitos humanos e à mitigação de riscos e abusos relacionados à vigilância; 
  • Promoção de um ecossistema informacional diverso e sensível a gênero, com destaque para a sustentabilidade do jornalismo independente. 

A organização também esteve à frente de dois eventos paralelos (side events) e participou de outros dois, abordando temas como segurança de jornalistas sob perspectiva de gênero e os desafios à liberdade de expressão na América Latina. As contribuições da equipe foram amplamente reconhecidas por relatoras especiais e representantes diplomáticos. 

Em reuniões com missões permanentes de países estratégicos — como Canadá, Suécia, Brasil, México e Bélgica —, a ARTIGO 19 reforçou a importância da inclusão de temas como interseccionalidade, assédio judicial e criminalização de vozes historicamente silenciadas nas resoluções da ONU. 

A organização também dialogou com relatorias e especialistas independentes sobre casos de liberdade artística, repressão a protestos, desafios à liberdade de expressão e questões ambientais, ampliando o espaço de incidência internacional e abrindo caminhos para futuras colaborações. 

Por fim, acompanhamos os diálogos interativos com relatorias sobre liberdade de expressão, liberdade de associação e empresas transnacionais, além dos debates informais sobre a resolução de novas tecnologias. 

A ARTIGO 19 Brasil e América do Sul reafirma o compromisso da organização com a defesa dos direitos humanos e a promoção de uma participação democrática robusta e plural nos espaços multilaterais. 

No dia 18 de setembro de 2025, a ARTIGO 19 Brasil e América do Sul apoiou o encontro “Em defesa das ilhas: coreografias insulares entre Guadalupe, Martinica e Cocaia”, realizado na Aliança Francesa do Recife como encerramento da exposição Pensar como Ilha, Esculpir Multidão, do artista Paulo Oliveira. 

O evento reuniu artistas de diferentes territórios e trajetórias — Paulo Oliveira (Suape), Lēnablou (Guadalupe) e Rayana Rayo (Recife/Martinica) — em uma conversa espiralar mediada por Gugo Siqueira. Mais do que uma mesa-redonda, o encontro foi concebido como travessia: um laboratório de escuta, onde vozes, línguas e gestos se entrelaçaram em fluxo poético e político. 

A experiência destacou-se pelo uso de multilinguagens, como projeções digitais, ambiência sonora e tradução consecutiva entre francês e português, que funcionou como mediadora rítmica. Os conceitos de bigidi (desequilíbrio que sustenta), fap-fap (gesto de adaptação intuitiva) e paisagem-sujeito atravessaram as falas, propondo uma ética de criação que resiste à lógica produtivista e valoriza o tempo da escuta e da deriva. 

“O encontro foi também muito marcado por reflexões sobre as residências artísticas de uma perspectiva do Sul Global. Um ponto de aprendizado dessas conversas foi entender que não atrelar essas residências à entrega de produtos finais poderia ser benéfico para que o artista consiga aproveitar o território em intercâmbio com outros artistas e vivências”, conta Raquel da Cruz Lima, coordenadora do Centro de Referência Legal da ARTIGO 19 Brasil e América do Sul. 

Como legado, o encontro articulou práticas artísticas e lutas territoriais. Moradores da região da ilha da Cocaia, incluindo lideranças do movimento Cocaia Vive, participaram do evento, ampliando o campo de atuação entre arte e ativismo. A fala de Mardônio, liderança da Vila de Nazaré, convocou os presentes para a festa da ouriçada, em 13 de dezembro — celebração popular que também denuncia os riscos de destruição da ilha frente à expansão do Complexo Industrial Portuário de Suape. 

A ARTIGO 19 reconhece a potência desse gesto e vislumbra possibilidades de atuação conjunta com os coletivos que defendem a ilha da Cocaia. Seguimos comprometidos com a promoção da liberdade de expressão, do acesso à informação e da escuta como prática política, especialmente em territórios ameaçados. 

Bigidi mè pa tombé — balança, mas não cai. 

A ARTIGO 19 Brasil e América do Sul realizou, entre os dias 6 e 10 de outubro, o seminário “Enfrentando a concentração econômica em Mercados Digitais: direito da concorrência e soluções tecnológicas para a proteção dos direitos humanos”, com uma série de atividades evolvendo atores nacionais e internacionais.  

Os eventos tiveram a participação de outros escritórios regionais da ARTIGO 19 (México & América Central, Kenya & África Oriental e Senegal & África Ocidental), além de organizações da sociedade civil e representantes do poder público, e ocorreram entre o escritório da organização e o Espaço Abrahão e Rosa, no centro de São Paulo/SP. 

“Foi uma semana importante para conhecermos mais os trabalhos dos nossos pares nos temas de mercados digitais, sobretudo na regulação econômica das big techs, e construirmos estratégias conjuntas de inovação e incidência política para redesenhar os ecossistemas digitais no Sul Global com foco nos direitos humanos e na democracia”, explica Paulo José Lara, co-diretor executivo da ARTIGO 19 Brasil e América do Sul. 

Estiveram presentes representantes do Núcleo Jornalismo, InternetLab, Momentum – Journalism and Tech Task Force, Secretaria de Comunicação da Presidência da República do Brasil, NIC.br, Net Coallition, Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), Open Society Justice Initiative (OSJI), Fundação Getúlio Vargas (FGV), Observacom, Conectas Direitos Humanos, Sleeping Giants Brasil, Instituto de Defesa do Consumidor (IDEC), Eletronic Frontier Foundation (EFF), Derechos Digitales, Casa Meninos, i3MD e Associação de Jornalismo Digital (Ajor). 

Há poucos dias da COP30,  Governo Federal ainda não publicou e instituiu Decreto com a íntegra do Plano Nacional de Proteção às Defensoras e aos Defensores de Direitos Humanos, coloca defensores de direitos humanos sob grave risco de criminalização e de violência letal.

Em nota pública divulgada nesta quarta-feira (15/10), o Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos (CBDDH) critica o Governo Federal por negligência na proteção de ativistas. A entidade sustenta que a não publicação do Decreto contendo a íntegra do Plano Nacional de Proteção (Plano DDH) – documento pactuado no âmbito do Grupo Técnico de Trabalho (GTT) Sales Pimenta -, expõe as defensoras e os defensores de direitos humanos (DDHs) a um aumento do risco de criminalização e assassinato.

O documento ainda aponta que, em setembro de 2025, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) comunicou ao GTT Sales Pimenta a decisão de não publicar o Decreto com o texto integral do Plano, que seria estabelecido em momento posterior por Portaria interministerial.  Para o CBDDH, tal medida resulta na “fragmentação do ato normativo”, enfraquecendo a política e sua força vinculante. A entidade argumenta que isso é particularmente preocupante dada a “reconhecida fragilidade institucional e alta rotatividade administrativa” do país, contrariando o pactuado no Grupo de Trabalho.

Leia a nota na íntegra aqui.

Entre os dias 24 e 26 de setembro, a Rede Nacional de Proteção de Jornalistas e Comunicadores realizou seu 4º encontro presencial. Desta vez, o evento ocorreu em Salvador, Bahia, com a presença de organizações de direitos humanos, coletivos de mídia e outros profissionais independentes que contribuem para o tema no país. 

“Nesse ano, conversamos muito sobre o papel das redes sociais e da internet para a comunicação, com uma extensa programação de debate e formação voltada para essa discussão. Foi interessante perceber como, em uma rede diversa e nacional, há uma percepção bastante convergente sobre a necessidade de regular o espaço digital de modo a permitir que a comunicação, em todos os seus formatos, possa usá-lo estrategicamente para disseminar assuntos e informações de interesse público, de forma livre de violência e medo”, conta Maria Tranjan, coordenadora de Proteção e Participação Democrática da ARTIGO 19 Brasil e América do Sul. 

A rede é uma iniciativa que une organizações da sociedade civil, pessoas comunicadoras e jornalistas, coletivos de comunicação, movimentos sociais, sindicatos e outras entidades de todo o Brasil em defesa da liberdade de expressão e da segurança de pessoas comunicadoras e jornalistas. 

Essa articulação nacional visa combater o avanço dos ataques e ameaças à liberdade de expressão, encaminhando denúncias e realizando acompanhamento dos casos recebidos e oferecendo formações e estratégias para garantir a segurança de pessoas comunicadoras e jornalistas, fundamentais para o funcionamento democrático da sociedade. 

Como funciona 

A Rede promove uma articulação contínua entre organizações, coletivos e indivíduos comprometidos com a defesa da liberdade de expressão, fortalecendo uma rede de apoio mútuo em todo o país. 

Promovemos atividades formativas sobre diversos temas relacionados à defesa da liberdade de expressão como segurança digital, estratégias de autoproteção, orientações para cobertura jornalística e captação de recursos. 

Para combater a subnotificação, a Rede disponibiliza uma ferramenta digital segura para receber denúncias de ameaças e ataques a pessoas comunicadoras e jornalistas. 

O Mapa do Aborto Legal está de cara nova. Após 3 anos, a ARTIGO 19 Brasil e América do Sul lança, neste dia 29 de setembro, a plataforma atualizada do Mapa do Aborto Legal. A interface digital contempla um mapa interativo com os hospitais que realizam o procedimento no Brasil, além da metodologia adotada e uma biblioteca com materiais sobre direitos reprodutivos. 

O que é o Mapa do Aborto Legal?

Lançado em 2019, o Mapa do Aborto Legal é a primeira ferramenta que mapeia os hospitais do SUS habilitados para realizar o aborto legal no Brasil. Desenvolvido com base em dados públicos, o Mapa busca ampliar o acesso à informação e fortalecer políticas de saúde baseadas em direitos humanos.   

Mais do que reunir e organizar informações, o Mapa do Aborto Legal é resultado de uma extensa pesquisa desenvolvida pela ARTIGO 19 Brasil e América do Sul, que checa e cruza dados públicos sobre os serviços de saúde listados para oferecer o aborto legal, buscando compreender as brechas no oferecimento de informações sobre o direito pelo Poder Público.

O que essa atualização tem de novo?

  • Nova metodologia: Para aumentar a confiabilidade, o processo de coleta, checagem e classificação das informações sobre os serviços que realizam o procedimento foi aprimorado. Também foram incluídas etapas de coleta qualitativa de informação, a partir da realização de entrevistas.
  • Novas classificações:
    • Antes: ligações telefônicas aos serviços cadastrados em bases de dados federais definia a classificação entre “fazem aborto legal” e “não fazem aborto legal”; 
    • Agora: a ligação é só uma etapa de confirmação — sem excluir o serviço da lista. Os serviços passaram a ser classificados em três níveis de confirmação: federal (quando presentes nas bases de dados do SIH/DATASUS ou do CNES), estadual (quando informados pelas Secretarias de Saúde dos estados, a partir de pedidos via lei de acesso à informação) e local (quando confirmados a partir de ligação telefônica realizada para o próprio serviço).
  • Nova identidade visual e apresentação dos dados: além de um visual repaginado, mais acessível e com linguagem inclusiva, a apresentação dos dados agora acompanha as novas classificações, acima descritas;
  • Novos filtros de busca: a nova identidade visual permite que as buscas por serviços sejam feitas por município, por estado e por número e/ou nível de confirmações.

Quais os principais desafios?

“Um dos maiores desafios para mapear os hospitais que realizam a interrupção legal da gestação é a falta de padronização nas bases de dados públicas. As informações disponíveis em diferentes sistemas oficiais não coincidem entre si, o que revela inconsistências e dificulta o acesso a dados confiáveis sobre a rede de atendimento. Nesta atualização, identificamos que há uma incompatibilidade gigante entre essas informações, incluindo entre bases de dados federais, o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) e o Sistema de Informações Hospitalares do DATASUS”, explica Maria Tranjan, coordenadora do projeto e da área de Proteção e Participação Democrática da ARTIGO 19 Brasil e América do Sul. 

A comparação entre o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) e as informações obtidas pelo Sistema de Informações Hospitalares do DATASUS revelou disparidades significativas. Da combinação dessas listas foram identificados:  

  • 416 hospitais potencialmente aptos a realizar o procedimento  
  • 164 hospitais cadastrados no CNES 
  • 359 hospitais cadastrados no SIH/DATASUS 
  • 116 hospitais presentes em ambas as bases (CNES e SIH/DATASUS) 
  • 9 hospitais listados somente pelas Secretarias de Saúde dos estados 

Apesar de um aumento sensível no número de serviços disponíveis para realizar o procedimento contabilizados na plataforma (de 132, em 2022, para 419, em 2025), diversas dificuldades no acesso a essas informações se acumulam com o passar dos anos. Mais sobre este tema será apresentado na pesquisa que analisa as informações disponibilizadas na interface digital, com lançamento previsto para novembro deste ano. 

Antecedentes e próximos passos 

Desde sua primeira edição, em 2019, a ferramenta passou por outras três atualizações: em 2020, revelando os impactos da pandemia sobre a rede de acolhimento a pessoas que necessitavam do aborto legal; em 2022, com destaque para a ausência de informações de qualidade e a disseminação intencional de conteúdos falsos em materiais oficiais; e em 2025, apresentando uma nova metodologia de pesquisa, que revela a grave falta de padronização nas bases de dados públicas dos hospitais aptos a realizar o aborto legal no Brasil.   

Além da plataforma, a série “Aborto e Democracia” conta com cinco reportagens feitas em parceria com a Revista AzMina,  Portal Catarinas, Paraíba Feminina e Nós, Mulheres da Periferia, sobre o aborto legal nas cinco regiões do Brasil, uma pesquisa analisando as informações disponibilizadas na interface digital e uma cartilha serão publicadas nos próximos meses. Os conteúdos estão disponíveis no site e nas redes sociais da organização.  

A plataforma JusticiaTransparente.org é uma ferramenta inédita que permite conhecer, avaliar e comparar o grau de transparência dos poderes judiciais em 18 países da América Latina. Ela já está disponível para consulta e tem como objetivo ampliar o controle social e promover o fortalecimento institucional a partir da transparência. 

A iniciativa sistematiza 88 indicadores relacionados ao acesso à informação e à prestação de contas no sistema de justiça, oferecendo dados e análises fundamentais para organizações da sociedade civil, pesquisadores, jornalistas e formuladores de políticas públicas. 

O Brasil encontra-se na décima posição, somando 113.5 pontos de um total possível de 219. Com destaque para a Lei de Acesso à Informação (12.527/2011), a avaliação coloca o Brasil numa posição intermediária (moderado), evidenciando a discrepância entre a regulamentação disponível e as práticas em curso.  

O lançamento ocorreu em julho, durante uma mesa redonda virtual com especialistas e representantes de organizações da sociedade civil, organismos internacionais e instituições públicas. Acesse a gravação do evento aqui. 

A abertura ficou a cargo de Pedro Vaca, Relator Especial para a Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que destacou o papel da transparência como instrumento essencial para a autonomia do Poder Judiciário e para a consolidação da democracia na região. 

Participaram do debate: 

  • Celeste Fernández, co-diretora executiva da ACIJ (organização membro da Aliança Regional); 
  • Élida Dávalos, da Corte Suprema de Justiça do Paraguai; 
  • Marcos Mendiburu, consultor regional da UNESCO; 
  • Luis Alfonso García Corrochano, membro do Comitê Jurídico Interamericano da OEA; 
  • Julio César Bonilla Gutiérrez, do Instituto de Transparência da Cidade do México. 

Entre os temas abordados estiveram a crise de confiança no Judiciário, a ausência de vontade política como entrave ao acesso à informação, e os caminhos para construir uma justiça mais aberta e responsiva à sociedade. Também foram compartilhadas boas práticas em curso em diferentes países, reforçando a necessidade de cooperação regional. 

A ARTIGO 19 Brasil e América do Sul convida todas as pessoas interessadas a explorar a plataforma e a somar neste debate por uma justiça mais transparente e democrática. Acesse justiciatransparente.org 

Neste 15 de setembro, Dia Internacional da Democracia, reafirmamos nosso compromisso com sua construção de forma real, plural e participativa.  

A condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e outros sete membros do núcleo crucial da trama golpista, composto por membros da alta elite política e militar, bem como a investigação de outros quatro núcleos pelo Supremo Tribunal Federal marca um momento histórico e simbólico para o país. 

Esta elite, jamais condenada na história brasileira, deve ser responsabilizada por tentativa de golpe de Estado e outros crimes contra o Estado Democrático de Direito. Trata-se de reconhecer que houve um projeto autoritário articulado para destruir as bases da convivência democrática no Brasil.  

A tentativa de ruptura institucional não foi um episódio isolado. Foi resultado de uma escalada de ataques sistemáticos às instituições, à liberdade de expressão e aos direitos humanos por grupos políticos e econômicos que desejam se perpetuar no poder. A instrumentalização do aparato estatal para disseminar conteúdos ilegais, cooptar forças de segurança e fomentar violência política revela o quanto a democracia brasileira esteve — e ainda está — sob ameaça. 

A resposta institucional à tentativa de golpe é necessária, mas insuficiente. A democracia não se fortalece apenas com punições. Ela se constrói com engajamento e participação ativa da sociedade na construção de uma agenda de defesa de direitos. 

A condenação de Bolsonaro deve ser compreendida como um marco, mas também como um alerta. A democracia brasileira precisa ser redesenhada, não para retornar ao que era antes, mas para avançar com espaços reais de influência popular nas decisões políticas e econômicas, com pluralidade no debate público e com garantia de direitos para todas as pessoas, especialmente aquelas historicamente silenciadas. 

 Isso significa enfrentar o poder concentrado das plataformas digitais, democratizar a infraestrutura da comunicação, proteger vozes vulneráveis e garantir que o direito à liberdade de expressão seja exercido com responsabilidade e equidade. 

A ARTIGO 19 Brasil e América do Sul seguirá atuando para que a liberdade de expressão seja uma ferramenta de transformação social, e não de opressão. Seguiremos defendendo uma democracia que não se limite à institucionalidade, mas que seja viva, justa e verdadeiramente inclusiva. 

Setembro de 2025 – Está no ar o Radar Antigênero, uma plataforma desenvolvida pela Gênero e Número em parceria com a Novelo Data que utiliza inteligência artificial para monitorar, classificar e analisar vídeos com discurso antigênero no YouTube. O lançamento acontece em um momento de acirramento das disputas discursivas digitais e busca oferecer transparência, dados e insumos para enfrentar narrativas que atacam a diversidade e os direitos humanos.

Entre os principais temas, sobressaem a defesa de papéis tradicionais de gênero, presente em 65% dos vídeos analisados, seguida pelo antifeminismo (25% dos vídeos) e pela moralidade (20%). As estratégias narrativas mais recorrentes vão do humor depreciativo, que ridiculariza mulheres e pessoas trans, à mobilização do medo e da ameaça, quase sempre combinadas a ataques pessoais e teorias da conspiração. Esse arranjo consolida uma lógica de “guerra cultural” permanente, na qual o digital se torna catalisador de disputas morais e políticas, reforçando estigmas e ampliando a polarização.

“O discurso antigênero não é apenas retórico, ele impacta vidas reais. A partir do humor ou da suposta ‘opinião pessoal’, reforçam-se violências simbólicas e estruturais contra mulheres, pessoas trans, negras e instituições democráticas. O Radar Antigênero nasce justamente para tornar visível esse ecossistema, oferecendo dados e análises acessíveis que ajudam a desmontar narrativas criadas para silenciar identidades e restringir direitos”, afirma Vitória Régia da Silva, diretora executiva da Gênero e Número.

Ela destaca que, mais do que uma plataforma tecnológica, o Radar é uma ferramenta de cidadania: “Amplia nossa capacidade de compreender como o ódio se organiza, de onde parte e a quem atinge. Em um contexto político marcado pela radicalização, oferecer informação qualificada é um passo indispensável para a defesa da diversidade e da democracia

Pensada para ser intuitiva e acessível, a ferramenta combina a criação de uma metodologia inédita, sofisticação no tratamento de dados e uma navegação simples, permitindo que qualquer pessoa – de jornalistas a integrantes da sociedade civil – possa interpretar os resultados sem barreiras técnicas. Usuários podem aplicar filtros, explorar gráficos interativos e exportar informações, ampliando as possibilidades de análise e investigação.

“O Radar Antigênero pode ser visto como um instrumento de monitoramento democrático que combina inteligência artificial e análise sistemática de dados. Ao evidenciar padrões e estratégias recorrentes, oferece insumos constantemente atualizados para imprensa, pesquisa acadêmica e sociedade civil enfrentarem a normalização da violência de gênero online.”, complementa Flávio Nakasato, sócio da Novelo Data.

A metodologia da ferramenta se estrutura em três eixos — temas, estratégias discursivas e sujeitos —, permitindo mapear não apenas o volume de conteúdos, mas também o que se diz, como se diz e quem são os principais alvos dessas narrativas. A análise histórica já realizada pelo Radar, de janeiro de 2018 a agosto de 2025, mostra que a produção de vídeos antigênero segue um padrão cíclico e reativo, sempre atrelado a momentos de disputa institucional e política.

Entre o fim de 2021 e o início de 2022, em meio à pré-campanha presidencial Lula x Bolsonaro, houve um crescimento expressivo dos conteúdos sobre papéis de gênero (quase quadruplicando) e antifeminismo (alta de mais de 400%), resultando no primeiro grande pico em maio de 2022, quando foram publicados mais de 200 vídeos em um único mês. Em 2024, entre abril e junho, durante as eleições municipais e os debates sobre regulação das plataformas digitais, foram mais de 560 vídeos publicados, com destaque para a ascensão de críticas à chamada “agenda woke”, que dobraram em incidência. Já em 2025, mesmo fora do calendário eleitoral, só em agosto foram registrados mais de 270 vídeos, sobretudo sobre educação e com falas transfóbicas, revelando a capilarização do discurso para além dos períodos de pleito.

O lançamento da plataforma também está articulado ao Guia Prático para reconhecer, investigar e contextualizar o discurso antigênero, que reúne orientações para jornalistas e comunicadores sobre como investigar vídeos e narrativas sem amplificar mensagens discriminatórias.

Sobre a Gênero e Número

A Gênero e Número é uma associação sem fins lucrativos que produz, analisa e dissemina dados especializados em gênero, raça e sexualidade em diferentes formatos para apoiar a garantia dos direitos de mulheres, populações negra, indígena e LGBTQIA+.

Sobre a Novelo Data

A Novelo Data é um estúdio de análise de dados com ampla experiência em analisar grandes volumes de dados, especialmente discursos no YouTube. As análises da Novelo Data sobre o tema já foram veiculadas por dezenas de veículos jornalísticos no Brasil e no mundo.

Nos dias 23 e 24 de agosto de 2025, a ARTIGO 19 Brasil e América do Sul promoveu um encontro histórico e potente em Altamira (PA). Reunindo comunicadoras, artistas e jornalistas da Região Norte, o evento marcou o primeiro encontro presencial do curso “Empodera Legal Norte – Defendendo a Liberdade de Expressão para comunicadoras, artistas e jornalistas”, .  

O encontro ganhou uma dimensão especial ao acontecer às margens do Rio Xingu – território indígena, símbolo de resistência e luta ambiental. A escolha do local reforçou a conexão entre liberdade de expressão, justiça climática e a defesa dos direitos humanos, elementos centrais do programa. 

A troca entre as participantes elucidou o fortalecimento da atuação de ativistas no Pará e outros estados da região Norte, intensificando  o debate sobre: 

  • Violência de gênero 
  • Justiça climática e liberdade de expressão 
  • Direito de protesto e comunidades tradicionais 
  •  Proteção, autocuidado esegurança de defensoras 
  • Concentração da mídia e comunicação comunitária 

O Empodera Legal busca consolidar um espaço de aprendizado mútuo e fortalecimento de redes. Seu objetivo é apoiar comunicadoras, jornalistas e artistas na defesa da liberdade de expressão, ampliando mecanismos de acesso à justiça e criando alternativas para enfrentar as múltiplas violações de direitos que marcam o contexto brasileiro.   

“Esta é a primeira edição do Empodera Legal Itinerante – Edição Norte, onde estamos reforçando a importância de falar sobre empoderamento legal para jornalistas, comunicadores, artistas e ativistas, além de reforçar a presença de mulheres nestes lugares de debate”, comenta Dandara Rudsan, assessora do Centro de Referência Legal da ARTIGO 19 e ativista nortista. 

O programa é voltado exclusivamente para mulheres cis, trans, travestis e pessoas com outras expressões de gênero não contempladas pelo espectro cisnormativo, que já possuem trajetória no campo da comunicação, do jornalismo ou da arte, e que atuam ou desejam atuar a partir da perspectiva dos direitos humanos.   

A ARTIGO 19 Brasil e América do Sul reafirma seu compromisso em apoiar redes de escuta, cuidado e ação. Em tempos de retrocessos e ataques a defensoras e defensores, o encontro foi mais do que uma atividade formativa: foi um gesto de coragem, proteção e fortalecimento coletivo na luta em defesa dos direitos humanos.   

Icone de voltar ao topo
https://forumporn.net