Trilhas de Cuidado e Justiça: um guia para casos de violência de gênero na esfera digital

A ARTIGO 19 Brasil e América do Sul lança o guia “Trilhas de Cuidado e Justiça”, uma publicação que reúne estratégias práticas para enfrentar a violência de gênero na esfera digital — especialmente aquela promovida por grupos de ódio organizados online. Acesse o guia.

Em um contexto em que ataques, ameaças e campanhas coordenadas de desinformação se intensificam nas redes, o material parte de um diagnóstico central: a violência digital não é separada da vida real. Ela é uma extensão de violências estruturais já existentes, mas amplificada, persistente e com efeitos concretos na saúde, na segurança e na participação pública das pessoas afetadas.  

Grupos de ódio organizados — como redes coordenadas que atuam em fóruns, aplicativos de mensagens e plataformas digitais — operam como verdadeiras “milícias digitais”, articulando ataques para silenciar vozes dissidentes e restringir a participação política de mulheres, pessoas negras, LGBTQIAPN+, comunicadoras e defensoras de direitos humanos.  

“O guia busca reunir recomendações de como melhor acolher, julgar, responsabilizar e encaminhar casos de violência digital de gênero de uma maneira que pessoas afetadas não deixem de se expressar e de ocupar os espaços públicos, especialmente os digitais”, afirma Maria Tranjan, coordenadora de Proteção e Participação Democrática da ARTIGO 19. 

Sobre o guia 

O guia foi desenvolvido para apoiar a atuação de ativistas, organizações da sociedade civil e operadores dos sistemas de justiça e segurança pública, além de contribuir para a proteção de pessoas em situação de maior vulnerabilidade.  

Sua construção resultou da escuta de especialistas, pesquisadoras(es), pessoas que vivenciaram ataques online e representantes institucionais, com o objetivo de oferecer caminhos concretos de resposta a situações de violência digital de gênero. 

Organizado de forma prática, o guia apresenta três trilhas que estruturam o enfrentamento à violência digital de gênero: 

Trilha 1 — Acolher e encaminhar 

A primeira trilha destaca que o acolhimento é um passo fundamental para interromper o ciclo de violência. Reconhecer a experiência da vítima, evitar a revitimização e oferecer orientação clara são elementos centrais.  

Além disso, o guia orienta sobre como: 

  • registrar corretamente casos e provas digitais 
  • compreender as limitações institucionais 
  • utilizar diferentes canais de denúncia (como boletim de ocorrência, SaferNet e Disque 100) 
  • encaminhar casos de forma estratégica e segura 

O material também enfatiza que registrar é uma forma de proteção, permitindo a construção de evidências e o acompanhamento de padrões de violência ao longo do tempo.  

Trilha 2 — Responder e responsabilizar 

A segunda trilha aborda os desafios e possibilidades de investigação e responsabilização. Entre os principais pontos, destaca-se que a violência digital não pode ser analisada apenas como ações individuais, mas como fenômenos estruturados por plataformas digitais e dinâmicas de amplificação. 

O guia reúne recomendações como: 

  • identificar ataques coordenados e padrões de comportamento 
  • compreender o papel das plataformas digitais na disseminação da violência 
  • fortalecer a capacitação técnica de agentes públicos 
  • ampliar o entendimento jurídico sobre essas violências 

Também enfatiza a necessidade de avançar na responsabilização das empresas de tecnologia, reconhecendo seu papel na organização e amplificação de conteúdos violentos.  

Trilha 3 — Lutar e reconstruir 

Reconhecendo que os impactos da violência digital podem ser duradouros, afetando a saúde mental, a segurança e a vida pública das pessoas, a terceira trilha trata do que ocorre após o ataque: como seguir, se proteger e reconstruir possibilidades de atuação.  

Entre as recomendações, estão: 

  • práticas de autocuidado e redução da exposição 
  • acesso a apoio psicológico e psicossocial 
  • fortalecimento de redes de apoio coletivo 
  • adoção de medidas de segurança digital e proteção de dados 

Mais do que respostas individuais, o guia enfatiza que a proteção e o enfrentamento à violência digital precisam ser construídos coletivamente.  

Parceria com a Embaixada da França 

Produzido pela ARTIGO 19 Brasil e América do Sul em parceria com a Embaixada da França no Brasil, o guia “Trilhas de Cuidado e Justiça” reforça que enfrentar a violência digital de gênero é também defender a liberdade de expressão e o direito de participar da vida pública sem medo. 

Seu conteúdo também dialoga com os debates do seminário “Violência digital de gênero: impactos e perspectivas de combate aos grupos de ódio organizados online”, realizado em maio, em Brasília (DF), em parceria com a Embaixada da França. O encontro reuniu representantes do poder público e da sociedade civil para discutir respostas intersetoriais à violência online. 

Icone de voltar ao topo
https://forumporn.net