Os “índios” que não tinham nome, de Paulo Jeremias Aires, conquistou o primeiro lugar na categoria Iniciativa de Comunicação de Autoria Indígena do Concurso Dom Phillips e Bruno Pereira de Jornalismo e Comunicação em Defesa do Meio Ambiente, Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais.
A iniciativa retrata o processo de retomada identitária, territorial e cultural do povo Akroá Gamella, no Maranhão. Durante décadas, narrativas oficiais classificaram esse povo como “extinto”, negando sua existência e contribuindo para o apagamento de seus vínculos históricos, espirituais e comunitários. O trabalho confronta essa versão e apresenta os Akroá Gamella como um povo vivo, organizado e mobilizado pela recuperação de sua identidade e de seu território ancestral.
A narrativa acompanha um processo de reexistência construído a partir da reorganização comunitária, do fortalecimento dos vínculos com a terra e da valorização de práticas tradicionais. Entre elas está o ritual do Bilibeu, manifestação que articula memória, espiritualidade, pertencimento e continuidade cultural. Ao registrar essa experiência, o trabalho demonstra que os rituais não constituem apenas uma herança do passado, mas permanecem como formas atuais de produzir identidade, transmitir conhecimentos e fortalecer a coesão da comunidade.
A retomada territorial ocupa posição central nesse percurso. Para os Akroá Gamella, recuperar a terra significa também recuperar lugares de memória, práticas comunitárias, referências espirituais e condições para a reprodução de seus modos de vida. A reivindicação do território aparece, assim, como parte inseparável da reconstrução da identidade coletiva e da afirmação política do povo diante do Estado e da sociedade.
O trabalho dirige-se especialmente aos próprios Akroá Gamella e às novas gerações, que encontram na comunicação um instrumento para conhecer sua história, fortalecer o sentimento de pertencimento e participar da continuidade cultural da comunidade. Ao mesmo tempo, a iniciativa dialoga com instituições públicas, pesquisadores e a sociedade em geral, questionando documentos e discursos que negaram a existência do povo e ampliando o debate sobre reconhecimento étnico e direitos indígenas no Brasil.
Ao assumir a forma de reportagem-testemunho, a iniciativa rompe com uma longa tradição de narrativas produzidas de fora para dentro. A história é contada a partir da experiência e da perspectiva de quem enfrentou o apagamento, reorganizou a comunidade e voltou a afirmar publicamente sua existência. A autoria indígena permite que os Akroá Gamella deixem de aparecer apenas como objeto de estudo ou registro e ocupem o lugar de sujeitos de sua própria memória.
O impacto social e cultural do trabalho já pode ser percebido no fortalecimento da coesão comunitária e na reversão dos processos de invisibilização. A visibilidade alcançada também despertou o interesse da TV Globo em registrar o ritual do Bilibeu, demonstrando a capacidade da iniciativa de ultrapassar o território local e mobilizar a atenção pública para a existência, a cultura e as reivindicações do povo Akroá Gamella.
Mais do que recuperar uma história silenciada, Os “índios” que não tinham nome questiona quem possui o poder de reconhecer ou negar a existência de um povo. Ao reunir território, memória, espiritualidade e comunicação, a iniciativa mostra que a retomada indígena também acontece no campo das narrativas. Contar a própria história torna-se uma forma de enfrentar o apagamento, reivindicar direitos e assegurar que as novas gerações possam existir com nome, identidade, memória e território.
