3º lugar • Expedição ao Mamoriá Grande: indigenistas decifram sinais na floresta para proteger grupos isolados da Amazônia

Leão Serva

A reportagem Expedição ao Mamoriá Grande: indigenistas decifram sinais na floresta para proteger grupos isolados da Amazônia, de Leão Serva, conquistou o terceiro lugar na categoria Reportagem em Texto do Concurso Dom Phillips e Bruno Pereira.

Publicada pela Folha de S.Paulo, com fotografias de Rogério Assis e apoio da Rede de Investigações sobre Florestas Tropicais do Pulitzer Center, a reportagem acompanha uma expedição ao Mamoriá Grande, na região do Médio Purus, no sul do Amazonas. Em uma das áreas mais preservadas da floresta amazônica, a equipe registra o trabalho de indigenistas que percorrem caminhos, acampamentos e áreas de caça em busca de vestígios deixados por povos indígenas isolados.

Galhos dobrados, cascas retiradas das árvores, fibras utilizadas para fabricar cordas, pegadas, restos de alimentos, fogareiros e marcas de redes constituem uma linguagem que as equipes de proteção aprenderam a interpretar. A partir desses sinais, os indigenistas conseguem estimar o número e a faixa etária das pessoas que passaram por determinado local, reconhecer técnicas de trançado e cerâmica, identificar hábitos alimentares e acompanhar os deslocamentos dos grupos. Há também mensagens explícitas de advertência, como cruzes formadas por flechas ou galhos, que indicam que a aproximação não é desejada.

O monitoramento é realizado deliberadamente sem contato. As equipes visitam acampamentos somente depois que eles foram abandonados, alternando as expedições conforme as estações do ano para reduzir ao máximo o risco de encontro. Essa metodologia permite reunir informações indispensáveis à proteção territorial sem violar a decisão dos povos de permanecerem isolados. A precaução é fundamental porque o contato com pessoas de fora pode expor comunidades inteiras a doenças contra as quais não possuem defesas imunológicas, além de abrir caminho para conflitos, invasões e novas formas de violência.

A reportagem recupera o encontro inesperado ocorrido em agosto de 2021, quando integrantes da Funai se aproximaram de um acampamento utilizado por cerca de 60 pessoas. Embora inicialmente a existência de um grupo específico no Mamoriá Grande tenha sido questionada pela direção do órgão, os vestígios continuaram aparecendo nos anos seguintes. Em 2025, um jovem acompanhado da companheira e de uma criança aproximou-se de uma comunidade ribeirinha em busca de fogo. A família passou a ser monitorada a distância, e as tentativas de compreender sua língua indicaram que se tratava de uma fala peculiar, distinta das línguas arawá conhecidas na região.

O trabalho destaca ainda a presença de indígenas nas equipes das Frentes de Proteção Etnoambiental da Fundação Nacional dos Povos Indígenas. Entre eles estão Atxu Marimã, sobrevivente de uma família hi-merimã devastada por doenças após a aproximação com não indígenas, e Mandeí Juma, integrante de um povo reduzido por sucessivos massacres. Suas trajetórias transformam a proteção dos grupos isolados em um compromisso pessoal e coletivo: impedir que outras comunidades sejam atingidas pelas epidemias, invasões e violências que marcaram a história de seus próprios povos.

Ao apresentar o conhecimento desenvolvido por mateiros e indigenistas como uma verdadeira ciência da floresta, a reportagem valoriza uma forma de investigação baseada na observação minuciosa, na experiência acumulada e nos saberes indígenas. Seu objeto não é produzir imagens diretas dos povos isolados, mas reconhecer sua presença por aquilo que permanece no território, respeitando o direito de não serem vistos nem contatados.

Mais do que narrar uma expedição, o trabalho demonstra que o isolamento não decorre do desconhecimento do mundo exterior. Para muitos povos, ele constitui uma estratégia consciente de refúgio diante de epidemias, massacres, perseguições e frentes de ocupação. Proteger esses grupos exige assegurar a integridade de seus territórios, manter equipes especializadas e respeitar sua recusa ao contato. Ao tornar visível esse trabalho silencioso, a reportagem afirma que preservar a distância também é uma forma de presença do Estado e de defesa da vida.

Acesse o trabalho na íntegra aqui

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