Entrevista Débora Silva: “aprendi a usar a comunicação para lutar por justiça junto com outras mães pretas que perderam os seus filhos para a violência do Estado”

25 de julho de 2019 - Notícias



Hoje, dia 25 de julho, é celebrado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Para contribuir com discussões importantes nessa data, a ARTIGO 19 produziu uma série de entrevistas com mulheres comunicadoras, que reúnem a potência de quem utiliza o seu protagonismo frente às discussões sobre discriminações de gênero, raça e classe e outros temas na comunicação. As entrevistas reforçam que só se tem a liberdade de expressão efetivada quando múltiplas vozes rompem as barreiras estruturais e se fazem presentes no debate público.

A fala e a comunicação são fundamentais para uma pessoa se desenvolver, ter voz ativa e presente em uma sociedade de desigualdades, como avalia a ativista em direitos humanos Débora Maria da Silva, fundadora do movimento Mães de Maio, que atua pela memória, verdade e justiça de vítimas da violência policial no Brasil. A conversa inaugura a publicação de seis entrevistas com mulheres de expressão que serão lançadas semanalmente.

Leia abaixo a entrevista na íntegra.

Você se considera uma mulher comunicadora?

Sim, e muito pelo trabalho que realizamos com o Movimento Mães de Maio. Sabe, essas pessoas que nos acompanham têm uma gratidão muito grande por nós. Sempre que eu encontro alguém na rua, num evento ou numa roda, ela quer me tocar e me abraçar, acho que principalmente pela minha energia. Nada disso é uma mera coincidência. Eu tenho uma missão dada pelo meu filho Rogério [Edson Rogério Silva dos Santos foi assassinado em 15 de maio de 2006, após revista policial]. Ele é a luz que brilha dentro de mim, então, eu acho que eu sou uma mulher comunicadora sim, porque eu sempre fui muito tímida, mas aprendi a usar a comunicação para lutar por justiça junto com outras mães pretas que perderam os seus filhos para a violência do Estado.

A comunicação se relaciona com a sua luta política?

Sim, a comunicação é tudo, sem ela você não vai a lugar nenhum. Se você não se expressar em uma mesa, em uma roda, você vai ficando para trás e deixando que outras pessoas falem por você. Usar a comunicação como instrumento de transformação tem feito com que eu possa expor os meu pensamentos e fazer com que as pessoas não compitam com a minha fala, que é minha. Por isso que eu acredito e falo que a comunicação é fundamental para o ser humano se desenvolver.

Qual é a importância da mídia alternativa para as suas lutas políticas contemporâneas?

Uau, tocou na pergunta que eu mais amo. Eu acho que nós praticamente lançamos a mídia alternativa. Tendo em vista que a gente tem a Ponte Jornalismo e que o nascimento desse veículo tão importante se deu nas nossas entranhas, depois que percebemos que a mídia corporativista/tradicional é ‘bandida’. A gente fala que essa mídia é ‘bandida’ porque é ela quem explora a dor e criminaliza a periferia, a favela e, principalmente, as mães pretas. Daí surge a nossa maior necessidade de uma mídia livre, né? A que democratiza e nos ouve quando ninguém quer ouvir.

Nós nunca vamos aceitar que um repórter, um veículo de comunicação que se propõe a fazer uma matéria ou uma reportagem conosco tire palavras da nossa boca que não tenhamos dito, porque esse também é o papel da mídia ‘bandida’. Eles (que estão no poder) fazem de tudo para que os interesses sejam sempre os deles e nunca os nossos. Então, a mídia alternativa comunga conosco, porque, depois que inventaram o celular, a gente sabe fazer a nossa própria mídia, do nosso jeito. Desde o momento em que sabemos fazer a nossa própria mídia, a gente tem esse olhar de pautar as nossas histórias como elas são de verdade. E é isso que faz uma Débora ser uma Mãe de Maio.

Você já sofreu ou sofre algum ataque por exercer a sua liberdade de expressão?

Olha, eu acho que desde o momento que a gente cai para as trincheiras e sai para rua para lutar pelos nossos ideais, depois da perda de um filho, o medo de sofrer qualquer ataque acaba. É nesse momento que você deixa de ter medo. A minha liberdade de expressão vai ter sempre uma mesma expressão: de ódio. A expressão de uma mãe não pode ser rejeitada, afinal, nós não pedimos para o Estado entrar nas nossas vidas, mas o Estado entrou e ele não tem hora para sair. Enquanto a justiça não prevalecer para nós, enquanto não houver justiça para os nossos filhos, não haverá paz para os senhores e também para a mídia, pois nós, mães, não iremos nos calar.

Quais são as suas estratégias de resiliência e autocuidado perante o momento político atual?

Eu acho que não tenho com o que me proteger, tenho é que enfrentar. Desde o momento que você enfrenta, você não pode ter medo de nada porque você tem uma luz e essa luz é soberana. Essa luz é conduzida pelos nossos filhos que querem justiça e nada mais do que isso. Uma pessoa que luta por justiça, ela não merece ser crucificada, minimamente, ela merece ser homenageada. Homenageada em termos de que? De trazer a justiça de que ela tanto almeja. Pois o medo que a gente tinha era o de perder os nossos filhos. Mas desse governo? A gente não tem medo de desgoverno porque a gente enfrenta olho a olho lá no Parlamento. Nós o enfrentamos lá na Câmara dos Deputados na sala verde, quando fomos falar para sobre o autos de resistência. E nós já sabíamos com quem estávamos lidando. Desde o momento que a gente tenta contato com um governo que é capaz de fazer homenagem ao maior ditador, torturador de mulheres e de pessoas que eram contra a sua opinião, nós sabemos com quem estamos lidando. Uma pena que a esquerda não soube olhar com mais carinho para o desenho político que estava armado para o nosso país e todo mundo caiu na mesma vala. Mas, ainda sim, nós, como Mães de Maio, viramos lei no Estado de São Paulo e desde o momento que eles são guardiões da lei, eles têm que guardar as Mães de Maio.

Como você vê a importância e a multiplicidade de vozes diferentes e de grupos que exercem a sua liberdade de expressão?

Eu enxergo assim: muitas mães se inspiram nas Mães de Maio e a gente ensina muitas vezes qual é o melhor jeito delas se comunicarem e sempre seguirem a palavra de ordem: “não tem arrego, vai ter luta. Mexeu com nossos filhos, nós tiramos o seu sossego”. Com essa palavra de ordem, “não tem arrego”, a gente tem as mães como um instrumento de transformação e isso é muito importante. E o que me alegra muitas vezes nessa luta diária é o movimento de secundaristas, uma das maiores revelações da educação no Brasil. Para uma mãe, ver a luta desses jovens é como se estivéssemos vendo os nossos próprios filhos. Isso dá fôlego, dá vida.

A ARTIGO 19 valoriza a liberdade de expressão e multiplicidade de perspectivas e vozes, as opiniões expressas nas entrevistas não necessariamente representam os posicionamentos da organização.


LINK: https://artigo19.org/?p=16472

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