Entre os dias 23 e 25 de setembro de 2026, o Hub Green Sampa — Centro de Inovação Verde Bruno Covas, em Pinheiros, São Paulo — recebeu o Festival Compartilhe, realizado pela ARTIGO 19 Brasil e América do Sul. Com entrada gratuita, o encontro reuniu comunicadores, jornalistas, pessoas desenvolvedoras, ativistas, artistas, pesquisadoras, coletivos e organizações do Brasil e da América Latina em torno de uma pergunta urgente: como construir uma internet mais democrática, diversa, sustentável e orientada pelos direitos humanos?
“O ponto de partida do Festival Compartilhe foi reconhecer que a internet que existe hoje não é inevitável. A concentração de poder econômico e político nas grandes plataformas, a dependência de infraestruturas privadas, a crise de sustentabilidade da comunicação independente e a circulação acelerada de desinformação são resultados de escolhas que podem — e precisam — ser disputadas”, explica Paulo José Lara, co-diretor executivo da ARTIGO 19.
Ao longo de três dias, essa leitura crítica se transformou em espaço de encontro, experimentação e construção coletiva.
Veja como foi a programação completa aqui.
Uma programação para disputar futuros digitais
A programação reuniu painéis sobre novos modelos de sustentabilidade para a comunicação independente, dados como bem comum, soberania digital, tecnologias abertas, redes comunitárias, comunicação indígena, mídia comunitária, justiça climática e regulação econômica das grandes plataformas digitais. Em comum, os debates apontaram que a defesa da liberdade de expressão depende também das condições concretas para produzir, distribuir e acessar informação fora de lógicas concentradas, opacas e orientadas exclusivamente pelo lucro.
Ao aproximar experiências de diferentes territórios, o Festival evidenciou que alternativas à dependência das big techs já estão em curso. Redes comunitárias, mídias locais e indígenas, coletivos periféricos, iniciativas de tecnologia aberta e organizações da sociedade civil mostraram que outro ecossistema digital é possível quando há espaço para troca de conhecimento, articulação política e fortalecimento mútuo.
Da reflexão à prática
As oficinas levaram os debates para a prática. As atividades abordaram a criação de comunidades digitais fora das grandes plataformas, redes federadas em escolas, relações entre dados, gênero e território, infraestruturas alternativas, serviços digitais locais e tecnologia para crianças. Em cada encontro, a proposta foi deslocar participantes do papel de simples usuários de sistemas fechados para o de pessoas capazes de imaginar, adaptar e construir tecnologias alinhadas às necessidades de suas comunidades.
A Hackathon do Festival Compartilhe — Reflorestando a rede, realizada em parceria com a Electronic Frontier Foundation, reuniu grupos selecionados de diferentes regiões do país para desenvolver soluções abertas, acessíveis e replicáveis diante da concentração econômica e política no ambiente digital. Aplicativos, protocolos, processos, modelos de governança tecnológica e protótipos estiveram entre os formatos estimulados pela iniciativa, que articulou comunicação, tecnologia e direitos humanos.
Com 10 grupos participantes, a Hackathon foi acirrada e terminou com 4 grupos selecionados: 3 vencedores e uma menção honrosa. A Todas Labs ficou em primeiro lugar com o projeto “Reversa”, que trata de uma extensão para poder personalizar o Instagram. O Ônibus Hacker ficou em segundo lugar com o projeto “teenDNS”, que trata de uma ferramenta para controle parental. A Onda Eleitoral ficou em terceiro lugar com o projeto “Museu Eleitoral”, que trata de uma plataforma para registrar todos conteúdos publicados por candidatos em período eleitoral. A menção honrosa ficou com a IBEBrasil com o projeto “Mapas Livres”, voltado para a produção de mapas e narrativas territoriais.
Convivência, cultura e articulação
A Feira de Convivência ampliou o espaço de articulação entre organizações e coletivos que atuam na linha de frente da comunicação comunitária, da soberania tecnológica e dos direitos digitais. Gravações de podcasts, jogos interativos e intervenções artísticas — com Roda de Código, Pagode Na Lata e Craca e Sandra-X — completaram a programação, reafirmando que a construção de outros futuros digitais também passa pela criatividade, pelo encontro e pela celebração.
“O Festival Compartilhe nasceu da convicção de que a disputa pelo futuro da internet é também uma disputa por direitos humanos. Ver tantas pessoas — de territórios, experiências e perspectivas tão diferentes — ocupando esse espaço e construindo juntas é exatamente o que acreditamos: que uma comunicação mais democrática e soberana se constrói coletivamente, a partir de quem está na ponta”, complementa Raísa Ortiz Cetra co-diretora executivo da ARTIGO 19.
Participaram da Feira de Convivência as organizações: 2050, Pajubá Tech, Desterro Jornalismo, Abaré Escola de Jornalismo, Frente de TI do MST, Núcleo de Tecnologia do MTST, Toda Cidadã, Cataki, Um Minuto de Sua Atenção, Vote Pela Paz e Sleeping Giants Brasil. Os podcasts que gravaram episódios foram: Papo Preto (Alma Preta), Tecnopolítica (Sérgio Amadeu) e Dadocracia (Data Privacy Brasil).
Uma agenda que continua
O Festival Compartilhe se encerrou como um marco de articulação entre pessoas e iniciativas comprometidas com uma comunicação mais democrática, soberana e centrada nas pessoas. As conexões, ferramentas e aprendizados produzidos durante os três dias apontam para uma agenda permanente: enfrentar a dependência das big techs exige regulação democrática, infraestruturas abertas, sustentabilidade para a comunicação independente e participação efetiva das comunidades na definição dos futuros digitais.
Para a ARTIGO 19, essa agenda está diretamente ligada à defesa da liberdade de expressão e do direito à informação. Uma internet mais livre, diversa e plural será construída com autonomia, transparência, diversidade e participação — a partir dos territórios e de quem já transforma tecnologia em ferramenta de cuidado, organização e emancipação.
Assista aos vídeos do primeiro, segundo e terceiro dia.
As fotos do evento estarão disponíveis em breve em nosso Flickr.
O Festival Compartilhe foi uma realização da ARTIGO 19 Brasil e América do Sul com apoio da ADE SAMPA (Agência São Paulo de Desenvolvimento), Prefeitura de São Paulo, WACC (Asociación Mundial para la Comunicación Cristiana), APC (Association for Progressive Communications), Rhizomatica, CTRL+Z, Brasileiragem, EFF (Electronic Frontier Foundation), Sleeping Giants Brasil e Cultural Survival. A cobertura audiovisual foi feita pela Tenda Produtora.
