Como proteger sua atuação política no digital: oficina gratuita para Ativistas e Promotoras Legais Populares

Ser ativista no Brasil muitas vezes significa, cada vez mais, aprender a se proteger também fora do espaço físico: a vigilância, o assédio e os ataques coordenados que historicamente tentam calar quem luta por direitos migraram e se intensificaram para o ambiente digital. Mulheres, pessoas LGBTQIAPN+ e defensoras de pautas como direitos sexuais e reprodutivos sentem esse peso de forma particular, já que são justamente as vozes que mais sofrem para ocupar o espaço político com segurança. 

Foi a partir dessa realidade que, no dia 29 de agosto, realizamos, em parceria com a União de Mulheres de São Paulo, a oficina gratuita “Introdução à segurança digital para ativistas: reflexões sobre cuidados e práticas”, no Memorial da Resistência. O encontro partiu de uma ideia central: tecnologia não é um tema à parte da militância, mas uma extensão natural do cuidado que os movimentos populares já praticam há décadas – como cuidar da comunidade e, agora, também dos dados, das senhas e das conversas que sustentam a atuação política de cada uma. 

Ao compartilhar conhecimento e propor um espaço crítico de reflexão, a oficina cumpre um papel de democratizar o acesso à informação: transforma um saber técnico, muitas vezes restrito a especialistas, em ferramenta concreta ao alcance de quem constrói resistência todos os dias. E a segurança digital se insere nesse campo como uma dimensão indispensável da proteção integral, contribuindo para que ativistas e defensoras de direitos possam atuar politicamente com segurança, autonomia e de forma sustentável.  

Inclusive, a escolha do local também carrega peso simbólico: o Memorial da Resistência ocupa o prédio que já foi sede do DOPS – o Departamento de Ordem Política e Social, órgão responsável por perseguir, vigiar e torturar opositores políticos durante a ditadura militar. Hoje transformado em espaço de memória e reflexão sobre os anos de repressão, o Memorial é também um lembrete de que a vigilância sobre corpos e vozes dissidentes não é fenômeno novo – apenas mudou de forma. Realizar a oficina sobre proteção de ativistas neste espaço também é sobre ressignificar, afinal de território de controle, ele passa a sediar um encontro sobre autonomia e cuidado coletivo. 

Ao final do encontro, as participantes saíram não apenas com senhas mais fortes e contas mais protegidas, mas com um novo olhar sobre a própria segurança digital. Menos como um conjunto de regras técnicas e distantes e mais como parte de uma rede de cuidado que elas já constroem coletivamente todos os dias. Iniciativas como essa reforçam o compromisso da ARTIGO 19 e da União de Mulheres de São Paulo com o fortalecimento de defensoras de direitos humanos, entendendo que proteger quem luta é também proteger a própria luta. 

 

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