Por que os Maxakali estão convocando os espíritos para recuperar a Mata Atlântica, de Xavier Bartaburu, conquistou o segundo lugar na categoria Reportagem em Texto do Concurso Dom Phillips e Bruno Pereira.
Publicada pela Mongabay Brasil, a reportagem acompanha a luta do povo Tikmũ’ũn, também conhecido como Maxakali, para recuperar a Mata Atlântica e reconstruir as condições materiais e espirituais de sua existência. Seu território ancestral abrangia áreas dos vales dos rios Mucuri, Jequitinhonha e Doce, entre o nordeste de Minas Gerais e o sul da Bahia. Hoje, os Tikmũ’ũn vivem em áreas pequenas e descontínuas, cercadas por fazendas e ocupadas principalmente pelo capim-colonião, espécie invasora que empobrece o solo e dificulta o cultivo de alimentos e o retorno da vegetação nativa.
A reportagem reconstrói o processo histórico de expropriação e violência que produziu essa realidade. A expansão agropecuária, a implantação da Estrada de Ferro Bahia-Minas, a atuação de fazendeiros e agentes públicos e as políticas de assimilação impostas ao longo do século XX reduziram drasticamente o território e a população Tikmũ’ũn. Mesmo após a declaração da Terra Indígena Maxakali, em 1993, novas áreas de floresta foram substituídas por pastagens. A degradação alcança também os rios e as fontes de água, afetados por resíduos e substâncias tóxicas, em um contexto marcado pela insegurança alimentar, por doenças e por elevados índices de mortalidade infantil.
Ao mesmo tempo, o trabalho mostra que a floresta não é entendida apenas como um conjunto de recursos naturais. Ela está no centro da língua, dos cantos, da alimentação, da medicina e da cosmologia Tikmũ’ũn. Os yãmĩyxop, povos-espíritos que se manifestam por meio de animais, plantas e rituais, dependem da mata e de seus alimentos. A embaúba, cuja fibra é utilizada pelas mulheres na produção de linhas, bolsas, redes e máscaras cerimoniais, estabelece uma ligação entre pessoas, ancestrais e espíritos. Com o desaparecimento das árvores e dos animais, pessoas e yãmĩyxop passam fome, e os rituais precisam adaptar-se à escassez produzida pela devastação.
A matéria revela ainda como os cantos sagrados preservam uma memória da biodiversidade da Mata Atlântica. O repertório Tikmũ’ũn reúne cerca de 200 horas de cantos relacionados a diferentes povos-espíritos e menciona centenas de animais, plantas, aves, serpentes e abelhas, inclusive espécies que já não existem no território ou sequer possuem nome em português. Conservado especialmente pela transmissão da língua e dos conhecimentos entre as mulheres, esse acervo funciona como um inventário vivo da floresta e como instrumento de diagnóstico, cura, continuidade cultural e resistência ao apagamento.
É nesse contexto que surge o projeto Hãmhi, ou Terra Viva, iniciativa dedicada à recuperação de áreas de Mata Atlântica e à implantação de quintais agroflorestais. O projeto forma agentes agroflorestais Tikmũ’ũn, distribui sementes, mudas e equipamentos e apoia o plantio de espécies nativas, árvores frutíferas e alimentos como mandioca, milho, feijão, abóbora e batata-doce. Em seu primeiro ano, a iniciativa recuperou dezenas de hectares, implantou áreas de cultivo agroecológico e mobilizou mulheres viveiristas responsáveis por milhares de mudas. Os yãmĩyxop também participam desse processo, acompanhando os mutirões e conectando o trabalho de plantar às práticas espirituais e comunitárias.
Ao aproximar história, espiritualidade, ecologia e soberania alimentar, a reportagem demonstra que reflorestar o território Tikmũ’ũn significa muito mais do que plantar árvores. Significa recuperar alimentos, água, animais e condições de saúde, fortalecer a autonomia comunitária e garantir a transmissão da língua, dos cantos e dos conhecimentos entre gerações. Significa, sobretudo, reparar parte de uma destruição histórica e criar condições para que pessoas, floresta e povos-espíritos possam continuar existindo juntos.
