Memória visual do Vale do Juruá: a Amazônia acreana em tempos extremos climáticos
— PH Costa (Cruzeiro do Sul, Acre)

“Memória visual do Vale do Juruá: a Amazônia acreana em tempos extremos  climáticos” é uma série fotográfica produzida entre 2024 e 2025 que propõe uma  escuta visual do território amazônico a partir de um olhar interno, afetivo e político. As  imagens foram realizadas em Cruzeiro do Sul, Vale do Juruá, interior do estado do Acre  e extremo oeste da Amazônia brasileira, onde o avanço da crise climática se manifesta  com intensidade crescente por meio de secas severas, enchentes históricas,  queimadas e fumaça que encobrem o céu. Dividida em quatro ciclos: seca, fumaça,  cheia e novas queimadas, a obra traduz em linguagem visual a repetição acelerada desses fenômenos como sintomas da emergência climática e da negligência histórica  em relação às populações amazônidas. 

O conceito da série parte da ideia de memória como resistência: registrar é também  preservar a experiência coletiva de um território que luta diariamente para existir. As  imagens revelam um Acre real, pulsante, habitado (distante das representações  exóticas ou distantes que ainda predominam sobre a Amazônia). Ao mesmo tempo em  que documenta os efeitos do colapso ambiental, a obra afirma a vitalidade e a beleza  dos povos que habitam o Vale do Juruá, reafirmando que a floresta é viva porque é feita  de gente, de cuidado, de cultura e de afeto. 

A mensagem central da obra dialoga diretamente com o tema “Arte, Amazônia e seus  Povos: A Amazônia é agora! A Amazônia somos nós!” ao afirmar que a Amazônia não é  um lugar futuro, mas um presente urgente. A série denuncia a desigualdade climática e  o racismo ambiental que tornam a região Norte um dos epicentros das injustiças  socioambientais do país, ao mesmo tempo em que reivindica o direito à permanência e  à autodeterminação de seus povos. 

Em diálogo com a COP 30, que será realizada em Belém do Pará, o trabalho busca  tensionar a distância entre as grandes conferências climáticas e o cotidiano das  comunidades que vivem os impactos diretos das mudanças ambientais. As fotografias  convidam à reflexão sobre quem realmente paga o preço da crise climática e sobre  quem tem o direito de narrar a Amazônia. 

Sou amazônida, negro, gay e comunicador socioambiental, nascido no coração do  Juruá. Minha criação parte do lugar de pertencimento e da vivência direta com os povos  indígenas, ribeirinhos e comunidades tradicionais da floresta. Através da fotografia,  busco transformar a arte em espaço de denúncia, escuta e esperança. Memória visual  do Vale do Juruá é, assim, uma tentativa de dizer que a Amazônia acreana não é um  território vivo, plural e ameaçado. Embora constantemente esse território seja excluído  das narrativas nacionais, nós estamos aqui resistindo e construindo a floresta. Agora é  o tempo da ação e da escuta. É hora do Brasil e do mundo voltar os olhos para a  população acreana, afinal, nós somos a região coração do mundo.

PH Costa (Cruzeiro do Sul, Acre)
@phcosta_fotos

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