1º lugar • Memória visual do Vale do Juruá: a Amazônia acreana em tempos extremos climáticos

Paulo Henrique da Costa Silva

Memória visual do Vale do Juruá: a Amazônia acreana em tempos extremos climáticos, de Paulo Henrique da Costa Silva, conquistou o primeiro lugar na categoria Fotojornalismo, Ilustração, Charge, Cartum, HQs ou Grafite do Concurso Dom Phillips e Bruno Pereira.

Desenvolvido nos municípios de Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima e Porto Walter, no Acre, o projeto fotográfico de longo prazo registra as transformações provocadas pela crise climática em uma das regiões menos representadas nas narrativas nacionais sobre a Amazônia. Produzidas entre 2024 e 2026, as imagens documentam quatro ciclos de eventos extremos: seca, fumaça, cheia e queimadas. A proximidade entre esses fenômenos expõe sua repetição acelerada e revela os sinais de um desequilíbrio ambiental que afeta profundamente o território e seus habitantes.

Ao construir uma memória visual desses acontecimentos, o trabalho mostra que a crise climática não se limita a episódios isolados ou paisagens de destruição. Seus efeitos atravessam o cotidiano das populações locais, alteram a relação com os rios e a floresta, comprometem deslocamentos, atividades econômicas e formas de subsistência e aprofundam vulnerabilidades históricas. Em um território no qual as águas organizam os caminhos, a alimentação, o trabalho e a vida comunitária, a sucessão de secas e cheias extremas representa uma ameaça direta à continuidade dos modos de vida amazônicos.

A obra nasce do olhar de um fotógrafo amazônida, nascido e criado no Vale do Juruá. Esse pertencimento orienta uma prática fundada na proximidade, na escuta e no envolvimento com as comunidades fotografadas. Em vez de observar a Amazônia de fora ou reduzi-la a imagens descontextualizadas de devastação, o ensaio apresenta uma perspectiva local, afetiva e politicamente situada. A fotografia torna-se, assim, um instrumento de cuidado, denúncia e construção de narrativas produzidas a partir do próprio território.

Ao reunir registros de diferentes anos e momentos climáticos, Memória visual do Vale do Juruá também enfrenta a invisibilidade histórica da região. Embora o Juruá possua grande importância ecológica, social e cultural, suas populações e experiências permanecem muitas vezes à margem das representações predominantes sobre a Amazônia. O projeto busca fazer com que o território não apenas apareça, mas seja reconhecido e escutado como parte central das discussões sobre justiça climática, proteção ambiental e direitos das populações amazônicas.

Mais do que documentar eventos extremos, a série preserva a memória de um território em rápida transformação. Ao conectar ecologia, identidade, cultura e experiência comunitária, as imagens denunciam os impactos desiguais da emergência climática e registram também a permanência, a capacidade de adaptação e a resistência das populações do Vale do Juruá. O trabalho reafirma o direito de quem vive na Amazônia de narrar sua própria realidade e de participar das decisões sobre o presente e o futuro de seus territórios.

Acesse o trabalho na íntegra aqui

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