2º lugar • Kinjá — Gente de Verdade

Ruthiene Bindá

Kinjá: Gente de Verdade, apresentado por Ruthiene Bindá, conquistou o segundo lugar na categoria Reportagem Audiovisual do Concurso Dom Phillips e Bruno Pereira.

O documentário realiza uma expedição pelo território indígena dos Waimiri-Atroari e constrói uma narrativa sobre memória, resistência, reconstrução e proteção da floresta. O título parte da palavra “Kinjá”, utilizada com o sentido de “gente” ou “gente de verdade”, e afirma a existência de um povo que valoriza suas raízes, seu território e o legado transmitido entre gerações.

A produção recupera a história de dois povos originários que precisaram se unir depois de quase serem dizimados, na década de 1970, durante o processo de construção da BR-174. A rodovia, única ligação terrestre entre Roraima e o Amazonas e entre Roraima e o restante do Brasil, atravessou o território indígena e foi acompanhada por conflitos, invasões e graves perdas humanas e territoriais. Diante dessa violência, os Waimiri-Atroari desenvolveram mecanismos próprios de defesa, sobrevivência e proteção da floresta.

Ao percorrer o território, o documentário registra o cotidiano, as tradições, os conhecimentos e as formas de organização dos Kinjá. As imagens aproximam o público de uma sociedade que não pode ser compreendida somente pelas violências sofridas. O trabalho apresenta pessoas e comunidades que transformaram a experiência histórica de invasão em capacidade de mobilização, participação política e defesa de seus direitos.

Os testemunhos de sobreviventes e lideranças ocupam uma posição central na narrativa. Em vez de reconstituir a história exclusivamente por meio de documentos oficiais ou de interpretações externas, a produção privilegia as vozes de quem viveu os conflitos e acompanha seus desdobramentos. Essa escolha contribui para enfrentar apagamentos históricos e para questionar versões sobre a construção da rodovia que desconsideram seus impactos sobre a população indígena.

O documentário também registra, de maneira inédita, um ritual realizado durante a noite. A presença dessa dimensão do cotidiano permite que o público conheça aspectos da vida Kinjá que raramente aparecem nas representações convencionais sobre o povo. O registro, realizado com a participação da comunidade e orientado por sua perspectiva sobre os acontecimentos, procura respeitar os sentidos culturais, espirituais e coletivos que organizam a relação entre pessoas, memória e território.

Apresentado por Luciano Abreu e Ruthiene Bindá, Kinjá: Gente de Verdade tem direção e roteiro de Maria Isabel. A equipe de imagens é formada por Alexandro Pereira, Maria Isabel, Luciano Abreu e Denice Lima, com direção de arte de Celso Costa e Othon Felipe de Oliveira e produção executiva de Luciane Marques e Maria Isabel.

Mais do que uma expedição, o documentário constitui um exercício de reparação e resgate histórico construído com os Kinjá e a partir de seu olhar sobre os fatos. Ao registrar sua presença, seus modos de vida e suas estratégias de defesa, a produção demonstra que a preservação da Amazônia depende do reconhecimento dos povos indígenas como protagonistas da gestão de seus territórios. A proteção da floresta aparece, assim, inseparável da garantia da memória, da participação política, da autonomia e do direito dos Waimiri-Atroari de contar a própria história.

Acesse o trabalho na íntegra aqui

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