Dois Mundos, de Vinicius Sassine, conquistou o primeiro lugar na categoria Reportagem Audiovisual do Concurso Dom Phillips e Bruno Pereira de Jornalismo e Comunicação em Defesa do Meio Ambiente, Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais.
Veiculada pela Folha de S.Paulo e pelo Spotify, a produção é uma série investigativa em quatro episódios sobre a morte de Tadeo Kulina, indígena do povo Madiha Kulina que havia acabado de se tornar pai. Tadeo desapareceu de uma maternidade pública de Manaus, em fevereiro de 2024, depois de acompanhar a esposa, Ccorima Kulina, em uma viagem de aproximadamente 1.200 quilômetros para que ela pudesse receber atendimento durante uma gravidez de alto risco. A morte recebeu pouca atenção da imprensa e foi cercada por lacunas, contradições e informações mantidas sob sigilo pela polícia do Amazonas.
A investigação começou com uma reportagem factual publicada no mesmo mês do ocorrido e se estendeu ao longo de 2024. Vinicius Sassine percorreu lugares relacionados ao desaparecimento e à morte de Tadeo em Manaus, ouviu testemunhas, analisou documentos e buscou compreender como as instituições públicas conduziram o caso. Em dezembro daquele ano, o jornalista viajou à região do médio rio Juruá para incorporar à narrativa a perspectiva dos Madiha Kulina, povo que vive distante da capital amazonense e cujas experiências permanecem, muitas vezes, invisíveis para a sociedade e para os veículos de comunicação.
O primeiro episódio, Nascimento e morte, acompanha a busca por respostas em Manaus a partir de uma informação inesperada fornecida pela polícia oito meses depois da morte. O segundo, À margem, reconstitui a passagem de Tadeo e Ccorima pelo município mais próximo de sua aldeia e reúne relatos de profissionais de saúde sobre as condições em que encontraram o casal. A narrativa amplia o foco para revelar o desamparo e o preconceito enfrentados por pessoas indígenas quando precisam deixar seus territórios e procurar atendimento nas cidades.
No terceiro episódio, Nas curvas de um rio, a investigação chega às aldeias do médio Juruá. Familiares e integrantes da comunidade contam quem era Tadeo, descrevem marcas encontradas em seu corpo e reconstituem os acontecimentos posteriores à passagem do casal por Manaus. A escuta de Ccorima e dos parentes desloca o caso das versões produzidas pelas instituições e restitui centralidade às pessoas diretamente afetadas pela morte.
O quarto episódio, A investigação, examina documentos e aponta falhas na atuação da polícia do Amazonas. Segundo a série, o relatório final desconsiderou laudos e contradições nos depoimentos das testemunhas. O episódio também documenta a desassistência em saúde enfrentada por Ccorima, que permaneceu sozinha na maternidade após uma gestação de alto risco e o parto. Ao articular documentos, depoimentos e apuração em campo, a produção mostra como omissões institucionais podem comprometer a busca por respostas e por justiça.
A série foi produzida por Vinicius Sassine, Raphael Concli, Daniel Castro, Gustavo Simon e Magê Flores. Com reportagem, roteiro e narração de Sassine, edição de som e contribuição ao roteiro de Concli e coordenação de Castro, Simon e Flores, os quatro episódios foram publicados entre 31 de maio e 21 de junho de 2025. A investigação alcançou um resultado concreto: após a veiculação do podcast, o Ministério Público e a Justiça do Amazonas determinaram o desarquivamento do caso, levando a polícia a retomar as apurações.
Mais do que reconstituir uma morte, Dois Mundos denuncia as barreiras enfrentadas pelos povos indígenas no acesso à saúde, à segurança pública e à Justiça. A produção evidencia como distância geográfica, diferenças linguísticas, racismo e desconhecimento dos modos de vida indígenas podem produzir desassistência e ampliar situações de vulnerabilidade. Ao aproximar a investigação jornalística da escuta das aldeias, a série rompe o silêncio em torno do caso e demonstra o papel do jornalismo na responsabilização das instituições e na defesa do direito à verdade.
