Do Orum ao Ayê: publicação educativa para combate à desinformação sobre religiões de matriz africana, Volume 1, iniciativa apresentada por Ravik Oliveira, conquistou o primeiro lugar na categoria Iniciativa de Educação Midiática do Concurso Dom Phillips e Bruno Pereira de Jornalismo e Comunicação em Defesa do Meio Ambiente, Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais.
Produzida pela Casa São Lázaro no âmbito do edital Periferia Sem Fake, do Observatório Participativo da Desinformação, a publicação foi criada para oferecer informações qualificadas sobre as religiões de matriz africana no Brasil. A primeira edição, lançada em abril de 2026, reúne textos, fotografias, ilustrações, referências e orientações produzidas com a participação de integrantes da própria comunidade religiosa.
Localizada na região de Venda Nova, em Belo Horizonte, a Casa São Lázaro é um centro cultural e religioso dedicado à preservação e à transmissão da tradição Jeje-Mahi. Conduzida por Doté Márcio de Azansú, sacerdote com mais de 35 anos de atuação no candomblé, a instituição também desenvolve oficinas, formações, vivências e ações de acolhimento comunitário voltadas ao fortalecimento da identidade afro-brasileira.
A iniciativa surgiu como resposta a episódios de violação sofridos pela casa em 2025 e ao contexto mais amplo de intolerância contra comunidades tradicionais de terreiro. Em lugar de responder ao preconceito apenas pela denúncia, o projeto escolheu transformar a experiência de violência em uma ação educativa, reafirmando a liberdade religiosa e produzindo ferramentas para enfrentar informações falsas, estereótipos e discursos que associam as religiões afro-brasileiras ao perigo, ao mal ou à criminalidade.
A publicação explica que a desinformação sobre essas tradições está ligada ao processo histórico de colonização, escravização e tentativa de apagamento das culturas africanas no Brasil. As interpretações preconceituosas construídas durante esse período continuam a circular no presente, agora potencializadas pelas redes sociais, por vídeos e por conteúdos enganosos. Ao relacionar desinformação e racismo religioso, o material ajuda o público a compreender que as agressões contra terreiros não são episódios isolados, mas parte de uma estrutura histórica de discriminação.
Com linguagem didática, o conteúdo esclarece diferenças entre tradições como candomblé, umbanda, culto da Jurema, candombe, tambor de mina e batuque. Também explica as diferentes nações do candomblé, aborda os vínculos dessas religiões com a ancestralidade e a natureza e apresenta práticas, entidades, divindades, instrumentos, alimentos e formas de organização comunitária. Dessa maneira, enfrenta a tendência de tratar experiências culturais e religiosas diversas como se fossem uma única manifestação.
Uma das estratégias de educação midiática empregadas pelo material é a seção dedicada à verificação de afirmações recorrentes. A publicação confronta ideias falsas, como a de que umbanda e candomblé seriam a mesma religião ou de que figuras cultuadas nessas tradições corresponderiam a personagens do cristianismo. Ao explicar a origem colonial dessas associações e contextualizar os conceitos em seus próprios sistemas religiosos, o projeto oferece recursos para que leitores reconheçam conteúdos preconceituosos e desenvolvam uma leitura mais crítica das informações que recebem.
O material também apresenta casas de axé situadas em Venda Nova e municípios próximos, além de organizações que atuam na defesa da liberdade religiosa, na preservação do patrimônio cultural e na promoção dos direitos das comunidades tradicionais de terreiro. A publicação reúne ainda indicações de livros, filmes, podcasts e instituições para quem deseja aprofundar seus conhecimentos, funcionando simultaneamente como introdução ao tema e guia de formação.
Ao lado dos conteúdos informativos, Do Orum ao Ayê abre espaço para o testemunho de Doté Márcio de Azansú, que compartilha sua trajetória de vida e sua aproximação com as religiões de matriz africana. A experiência pessoal contribui para humanizar o debate e aproximar o público da dimensão comunitária do axé, apresentada como espaço de acolhimento, construção familiar, formação espiritual e preservação cultural.
A publicação foi construída por uma equipe formada por autores, artistas, pesquisadores, profissionais de comunicação e integrantes da comunidade. A produção executiva ficou a cargo de Ravik Oliveira, que também assina a direção e o roteiro, enquanto a direção geral é de Doté Márcio de Azansú. Esse processo coletivo articula os conhecimentos dos povos de terreiro com recursos de design, fotografia, audiovisual, pesquisa e comunicação.
Mais do que corrigir informações falsas, Do Orum ao Ayê reivindica o direito das comunidades de terreiro de produzirem conhecimento sobre si mesmas. A iniciativa demonstra que combater a desinformação exige ouvir as pessoas diretamente afetadas, reconhecer sua autoridade cultural e ampliar sua participação na produção dos conteúdos educativos. Ao transformar experiência comunitária em ferramenta de formação, o projeto promove liberdade religiosa, respeito à diversidade e valorização das heranças africanas na formação social e cultural brasileira.
