Cicatrizes da Pior Seca na Amazônia, de Michael de França, conquistou o terceiro lugar na categoria Fotojornalismo, Ilustração, Charge, Cartum, HQs ou Grafite do Concurso Dom Phillips e Bruno Pereira.
Produzido na comunidade de Pesqueiro, no município de Manacapuru, no Amazonas, o trabalho documenta os efeitos da seca extrema sobre o rio Solimões e as populações que dependem de suas águas. Registrada em 30 de setembro de 2024, a imagem apresenta um cenário radicalmente transformado: o leito antes ocupado pela imensidão das águas barrentas dá lugar a uma extensa paisagem de terra ressecada, bancos de areia, poeira e sulcos profundos.
A fotografia torna visível a dimensão concreta da crise climática na Amazônia. O recuo das águas não representa apenas uma alteração da paisagem. Em uma região na qual os rios funcionam como estradas, fontes de alimento e vias de acesso a serviços essenciais, a seca afeta diretamente a mobilidade, o abastecimento, a pesca e a comunicação entre comunidades. As grandes distâncias antes percorridas por embarcações tornam-se caminhos difíceis ou intransitáveis, ampliando o isolamento de famílias e dificultando o acesso à saúde, à educação, à alimentação e à água.
Ao transformar o rio Solimões em uma paisagem próxima de um deserto, a imagem confronta percepções que tratam a Amazônia como um território de recursos naturais inesgotáveis. A ausência das águas revela a vulnerabilidade de um sistema ambiental complexo, cada vez mais pressionado pelo aquecimento global, pelo desmatamento, pelas queimadas e pela alteração dos ciclos de chuva. As rachaduras no solo tornam-se, nesse contexto, marcas visíveis de uma crise que ultrapassa o campo ambiental e alcança todas as dimensões da vida social.
O trabalho também chama atenção para a desigualdade na distribuição dos impactos climáticos. Comunidades ribeirinhas e outras populações amazônicas contribuem pouco para as causas globais da emergência climática, mas estão entre as primeiras a sofrer seus efeitos. A redução dos rios compromete práticas culturais, conhecimentos tradicionais, relações comunitárias e estratégias de sobrevivência construídas ao longo de gerações. Ao registrar esse cenário, a fotografia evidencia a necessidade de políticas públicas capazes de responder tanto às emergências imediatas quanto às transformações de longo prazo.
O título Cicatrizes da Pior Seca na Amazônia reforça o caráter duradouro dessas consequências. Mesmo depois da eventual retomada das águas, permanecem as perdas econômicas, os danos ambientais e as marcas deixadas sobre pessoas, animais e territórios. A obra registra um momento extremo, mas também alerta para a possibilidade de que situações semelhantes se tornem cada vez mais frequentes e intensas.
Ao aproximar o público de uma realidade que números e gráficos nem sempre conseguem transmitir, a fotografia converte a paisagem em testemunho e denúncia. O trabalho reforça a urgência de prevenir o agravamento da crise climática, proteger os ecossistemas amazônicos e garantir medidas de adaptação construídas com a participação das comunidades afetadas. As cicatrizes registradas no leito do Solimões são também um chamado para reconhecer que a defesa dos rios é inseparável da proteção das vidas, dos direitos e dos modos de existência que dependem deles.
