Sou parte do povo Goytacá, habitantes originários do litoral sudeste que foram caçados e chegaram a ser considerados extintos há séculos. Hoje, ao olhar para a Amazônia, vejo o mesmo roteiro de extermínio sendo reescrito pela ganância e pelo “progresso”. Nesta obra, utilizo a fotografia bordada com intervenção de miçangas e lantejoulas para criar uma segunda pele sobre meu autorretrato: uma camada bela e cintilante, mas artificial, dolorida, rígida e sufocante.
O uso desses materiais não é decorativo; é um manifesto político sobre o nosso destino. As lantejoulas refletem a luz, mas bloqueiam a respiração da imagem. Elas representam a “museificação” da vida e a dizimação transformada em souvenir. Seremos reduzidos a adereços folclóricos em vitrines de museus, admirados apenas pela estética do que fomos, enquanto nossa existência física é apagada? A obra apresenta meu rosto como um “‘artefato vivo'”, uma resistência contra a fossilização da identidade indígena.
Esta criação dialoga com a urgência das pautas amazônicas ao trazer o testemunho histórico da Mata Atlântica como um alerta para a COP 30. O que aconteceu com os Goytacá — a transformação da vida em lenda e do território em recurso explorado — é o perigo iminente que ronda os povos do Norte. A relevância desta obra para o tema “A Amazônia é agora” reside na denúncia de que a floresta não pode virar lantejoula: um recurso brilhante, vendável, mas morto. A minha arte grita que a Amazônia precisa continuar sendo sangue, terra e ar. Ao costurar o brilho frio sobre a pele quente, convoco o espectador e os decisores globais a escolherem: queremos preservar a vida pulsante ou nos contentaremos com o brilho póstumo de uma cultura extinta?
Biografia
Eu sou Aline Brant (Aline Bagre), mulher indígena do povo Goytacá, mãe, artista visual e circense. Resido e atuo em Paraty (RJ), território de Mata Atlântica, onde minha prática artística se funde com a vivência comunitária e a defesa das memórias ancestrais. Minha trajetória é marcada pela busca incessante de reconexão com as “matas invisíveis” que habitam nosso imaginário e identidade, utilizando a arte como ferramenta de sutura entre o corpo e a natureza.
Minha pesquisa visual foca na intervenção manual sobre fotografia impressa, utilizando o bordado livre, miçangas e lantejoulas para ressignificar a imagem. Onde a fotografia captura o instante, o meu bordado insere o tempo lento, a persistência e a ancestralidade. Séries como “”Transbordo”” e “”Senhorinha”” exploram o feminino, o subconsciente e o apagamento histórico, tendo sido reconhecidas e publicadas internacionalmente (incluindo no livro francês De fil an aiguille: la broderie d’art contemporain).
Como mulher Goytacá — povo das águas e corredores do litoral sudeste, historicamente dizimado —, trago em meu trabalho a urgência de afirmar a presença indígena contemporânea. Minha arte não apenas retrata, mas “”refloresta”” simbolicamente os corpos e espaços, questionando as fronteiras geográficas que separam nossos biomas e nossas lutas.
Além das artes visuais, integro a Cia Bambulengo, onde atuo como palhaça e diretora artística. Neste espaço, utilizo a comicidade e a performance de rua como meios de democratização da arte e inclusão social, coordenando cortejos e oficinas que valorizam a cultura local e o riso como forma de resistência.
Nesta candidatura, apresento-me como uma artista que, situada fisicamente na Mata Atlântica, carrega a consciência de que a luta pela Amazônia é a luta pela integridade de todos os povos originários. Meu corpo-território é o suporte onde denuncio o apagamento e bordo a esperança de um futuro onde a natureza e a humanidade voltem a ser uma só.
