A Ferida de Kopenawa

Alícia Bianca (Boa Vista, Roraima)
@fabricadedesenhos_rr

Nesta obra, a figura xamânica é usada como metáfora viva da floresta e de seu espírito.  O pajé, guardião entre o mundo visível e o mundo espiritual, torna-se, aqui, a própria  tela onde a dor da terra se manifesta. 

O fogo, que devora os matos e lavrados de Roraima, aparece como uma ferida aberta  no peito. Não é apenas a natureza que queima: é a memória, a ancestralidade, a  tradição, a espiritualidade. A chama atravessa o corpo do guardião para mostrar que,  quando a floresta sofre, o povo sofre com ela. 

A lágrima que desce pelo rosto carrega o peso de séculos de sabedoria ameaçada. É o  choro dos que veem, sentem e protegem, mas também dos que são feridos pela  destruição que não provocaram. 

“A Ferida de Kopenawa” é um grito de memória e um apelo imediato por justiça  climática, dialogando diretamente com o tema do concurso. Ao nos mostrar que a dor  da floresta está gravada no corpo do Pajé, a arte afirma: “A Amazônia somos nós!”  Proteger o povo, a cultura e a sabedoria ancestral são o único caminho para curar a  ferida da Terra-Floresta. A obra é um chamado à ação, refletindo a urgência do “A  Amazônia é agora!” no contexto da COP 30. 

Esta obra é um manifesto visual que personifica o sofrimento e a resistência da  Amazônia através da figura de Davi Kopenawa Yanomami, o Xamã, líder e guardião da  floresta. 

O coração em chamas, no centro do peito, simboliza a ferida profunda causada pelo  garimpo ilegal, pelos incêndios e pela invasão do território Yanomami. Não é apenas  uma ferida na terra, mas um dano direto à alma e à essência do povo. 

A lágrima e a expressão de dor de Kopenawa, contrastando com a força do urucum (a  pintura de luta e proteção) e o maracá/lança (instrumentos de cura e defesa),  traduzem a urgência da situação. 

O coração ferido simboliza o impacto do garimpo ilegal (especialmente na Terra  Indígena Yanomami), do desmatamento e das queimadas, que são as maiores  ameaças à Amazônia. A obra coloca o sofrimento indígena no centro do debate  climático. 

Ao ligar a saúde do corpo do xamã à saúde da Terra, a obra reforça a visão indígena da  interconexão entre natureza e humanidade.

A figura de Kopenawa, em postura de luta e resistência (com a lança e o maracá),  simboliza o protagonismo indígena como a linha de frente da defesa ambiental. A obra  lembra que proteger os povos é a forma mais eficaz e urgente de proteger a floresta  contra o desmatamento e o aquecimento global, validando a visão de mundo indígena  na busca por soluções climáticas. 

 

Biografia

Artista plástica autodidata, artesã, nascida em Boa Vista – Roraima. Iniciou na arte aos 12 anos e, atualmente, é acadêmica de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal de Roraima.

No decorrer de sua trajetória, desenvolveu diferentes técnicas e estilos, transformando a arte contemporânea em um processo criativo que conecta identidade cultural, memória afetiva e paisagem amazônica. Conquistou 18 premiações em concursos de desenho em níveis regional, nacional (São Paulo e Rio de Janeiro) e internacional (Portugal e Itália).

Suas obras já ilustraram o Estatuto da Criança e do Adolescente de Roraima (em português e espanhol), além de livros de ficção e materiais editoriais. Em 2025, tornou-se a mais jovem imortal da Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia (ALACA), ao assumir a cadeira nº 329. Em outubro de 2025 foi premiada com a comenda honorífica medalha Pena de Ouro, na categoria Criação Cultural e Artística, concedida pela Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia.

Sua produção visual reflete a alma nortista: viva, ancestral e resistente.

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