Etnias: a primeira rede social criada por povos originários, iniciativa idealizada por Karuân e cofundada por Eliaquim Terena, conquistou o terceiro lugar na categoria Iniciativa de Comunicação de Autoria Indígena do Concurso Dom Phillips e Bruno Pereira.
A plataforma nasceu da necessidade de criar um ambiente digital seguro, intercultural e conectado às vivências dos povos originários. Sua construção começou em 2018, em Brasília, com iniciativas anteriores que contribuíram para seu desenvolvimento até a formalização da rede social, em junho de 2025. Desde então, o Etnias atua como um território digital voltado ao fortalecimento cultural, à articulação comunitária e ao enfrentamento da desinformação sobre os povos indígenas.
A iniciativa parte da constatação de que as grandes plataformas digitais nem sempre oferecem condições adequadas para a expressão indígena. A invisibilização de conteúdos, a circulação de estereótipos, os discursos de ódio e a apropriação indevida de imagens e conhecimentos dificultam uma participação segura e autônoma. Diante desse cenário, o Etnias propõe um espaço construído por povos originários, no qual indígenas possam compartilhar experiências, produzir conteúdos e estabelecer conexões a partir de seus próprios olhares, territórios e formas de existência.
A plataforma adota um modelo de governança e moderação comunitária destinado a preservar a integridade das narrativas e assegurar o uso ético e culturalmente responsável das imagens e informações compartilhadas. Esse modelo busca combater a desinformação e, ao mesmo tempo, fortalecer a circulação de conhecimentos autênticos, respeitando a autonomia, os direitos e as especificidades culturais das pessoas e comunidades envolvidas.
Mais do que uma rede social, o Etnias funciona como ferramenta de comunicação, construção de memória e articulação política. A iniciativa conecta indígenas de diferentes povos, territórios e contextos, incluindo comunidades aldeadas e pessoas indígenas que vivem em áreas urbanas. Seu público reúne jovens comunicadores, artistas, lideranças, anciãos, coletivos e comunidades do Brasil e de outros países das Américas que buscam autonomia digital, visibilidade para suas causas e valorização de suas culturas.
Entre os objetivos da plataforma estão ampliar a circulação de conteúdos produzidos por indígenas; valorizar culturas, línguas, saberes e práticas ancestrais; estimular a produção audiovisual, artística e jornalística; combater preconceitos e informações falsas; promover conexões entre lideranças, artistas e comunicadores; e contribuir para a inclusão digital com foco em autonomia e pertencimento. A rede também busca criar oportunidades de geração de renda por meio da economia criativa indígena.
Em oito meses de funcionamento, o Etnias alcançou mais de 17 mil usuários diretos, entre criadores, comunicadores, artistas, lideranças e consumidores de conteúdo. O público indireto foi estimado em mais de 500 mil pessoas, considerando o alcance das publicações, os compartilhamentos em outras redes, as ações culturais e a circulação dos conteúdos produzidos pelas comunidades participantes.
A rede integra um ecossistema de tecnologia indígena em expansão. Entre os projetos associados estão o Etnias Clima, aplicativo para monitoramento ambiental, proteção territorial e registro de denúncias de invasões, queimadas e crimes ambientais; o Etnias Agenda, calendário digital de eventos culturais e mobilizações; e o Etnias Fotos, espaço de comercialização e valorização do trabalho de fotógrafos indígenas. Essas frentes aproximam comunicação, defesa territorial, economia criativa e mobilização social.
Ao compreender a tecnologia como instrumento de reparação histórica, o projeto propõe uma relação em que inovação e ancestralidade caminham juntas. A presença indígena no ambiente digital não se limita ao uso de ferramentas desenvolvidas por terceiros. Ela envolve também o direito de criar tecnologias, estabelecer regras de convivência, proteger dados e conhecimentos e decidir como as culturas e identidades serão representadas.
Etnias: a primeira rede social criada por povos originários demonstra que a autonomia comunicacional também depende da capacidade de construir e governar os espaços digitais. Ao colocar a tecnologia a serviço das comunidades, a iniciativa fortalece identidades, amplia redes de apoio e permite que os povos indígenas contem suas histórias sem intermediários. O projeto contribui, dessa maneira, para uma internet mais diversa, ética e conectada às realidades e aos direitos dos povos originários.
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Desdobramentos da premiação:
