Rádio e TV Quilombo, de Raimundo José da Silva Leite, conquistou o segundo lugar na categoria Iniciativa de Comunicação de Autoria de Comunidade Tradicional do Concurso Dom Phillips e Bruno Pereira.
Há quase uma década, a iniciativa realiza registros audiovisuais no Quilombo Rampa, comunidade fundada em 1818 e localizada na zona rural do município de Cantanhede, no Maranhão. Produzida no próprio território, a comunicação promovida pela Rádio e TV Quilombo documenta histórias, conhecimentos, práticas culturais e aspectos do cotidiano da população quilombola.
Entre os registros realizados está um vídeo gravado em setembro de 2025, no qual Sebastião, ancião do Quilombo Rampa, aparece confeccionando um tambor. O processo de fabricação do instrumento conduz uma reflexão sobre os direitos das comunidades tradicionais ao território e sobre a relação entre preservação ambiental e valorização cultural. O vídeo transforma um saber cotidiano em registro histórico e em instrumento de defesa de direitos.
Ao acompanhar o trabalho do ancião, a iniciativa preserva um conhecimento que envolve a escolha dos materiais, os modos de fazer e os significados culturais associados ao tambor. O instrumento não é apresentado como um objeto isolado, mas como parte de uma rede de memórias, celebrações e relações comunitárias. O registro audiovisual contribui para que esse conhecimento possa ser compartilhado com jovens e futuras gerações.
A produção também evidencia que a continuidade das práticas culturais depende da permanência da comunidade em seu território. Sem acesso à terra e aos elementos naturais utilizados na produção dos instrumentos, celebrações e atividades tradicionais, os conhecimentos transmitidos pelos mais velhos ficam ameaçados. Dessa forma, registrar a confecção de um tambor significa também documentar a relação entre cultura, natureza e direito territorial.
Essa atuação ocorre em um contexto de fortes conflitos fundiários. Segundo as informações apresentadas pela iniciativa, o Maranhão é um dos estados mais perigosos do país para comunidades quilombolas, especialmente em razão da falta de titulação e regularização de suas terras. O Quilombo Rampa também está inserido na região do MATOPIBA, marcada pela expansão da fronteira agrícola e por intensa pressão de desmatamento sobre o Cerrado.
Nesse cenário, a comunicação comunitária assume uma função que ultrapassa o registro cultural. Produzir imagens e narrativas a partir do quilombo permite documentar ameaças, reivindicar direitos e tornar visíveis experiências que dificilmente encontram espaço nos meios de comunicação convencionais. A câmera se transforma em ferramenta de memória, formação, denúncia e proteção.
A Rádio e TV Quilombo também fortalece a troca entre gerações. Ao registrar os conhecimentos de anciãos como Sebastião, a iniciativa valoriza quem preserva a história comunitária e cria recursos para que crianças e jovens reconheçam a importância desses saberes. A tecnologia é incorporada à vida do quilombo como instrumento de continuidade cultural, sem substituir a oralidade ou as formas tradicionais de transmissão.
Mais do que produzir conteúdo sobre uma comunidade, a iniciativa realiza comunicação por, para e com a população quilombola. Essa perspectiva rompe com representações externas que frequentemente reduzem os quilombos a imagens de carência ou conflito. O trabalho mostra uma comunidade que produz conhecimento, desenvolve suas próprias linguagens e utiliza a comunicação para afirmar sua identidade e defender o território onde construiu sua história.
A Rádio e TV Quilombo demonstra que não é possível separar a salvaguarda cultural da proteção ambiental e territorial. Ao registrar a fabricação de um tambor, as histórias dos moradores e as práticas comunitárias, o projeto preserva a memória do Quilombo Rampa e denuncia as condições que ameaçam sua continuidade. A comunicação torna-se, assim, uma forma de manter o território vivo, fortalecer a representatividade quilombola e reivindicar o direito da comunidade de decidir seu próprio futuro.
