2º lugar • Maíra Porongytá — o aviso do céu

Kujãesage Kaiabi

Maíra Porongytá: o aviso do céu, de Kujãesage Kaiabi, conquistou o segundo lugar na categoria Iniciativa de Comunicação de Autoria Indígena do Concurso Dom Phillips e Bruno Pereira.

Lançado em 2025, o curta-metragem de ficção foi realizado pelo Coletivo Ema’ē Jeree, formado por jovens do povo Kaiabi do Território Indígena do Xingu, em Mato Grosso. O filme nasceu de um sonho do pajé Tuiaraiup Kaiabi, liderança espiritual mais velha do povo, e aborda as mudanças climáticas a partir da cosmologia, da espiritualidade e dos conhecimentos ancestrais kaiabi. Falada em língua kaiabi, com legendas em português, a obra tem duração de 20 minutos e estreou oficialmente em 19 de junho de 2025.

A produção foi desenvolvida ao longo de 12 meses, no contexto de um projeto de formação audiovisual que capacitou 12 jovens indígenas, dez mulheres e dois homens, em roteiro, fotografia, som, edição e operação de drone. As filmagens ocorreram na aldeia Guarujá e em seus arredores, com participação ativa da comunidade. Esse processo assegurou o protagonismo indígena em todas as etapas, desde a concepção inspirada pelo sonho do pajé até a realização técnica e a circulação pública do filme.

O curta conecta a emergência climática contemporânea a uma leitura ancestral das transformações do ambiente. O “aviso do céu” é transmitido a partir de uma visão na qual alterações no clima, na temperatura, nos rios, nas roças e na floresta não podem ser compreendidas separadamente das relações espirituais e comunitárias. A obra questiona a ideia de que apenas a ciência produz conhecimento válido sobre a crise climática e apresenta a cosmologia kaiabi como uma forma própria de observar, interpretar e responder às mudanças que ameaçam o equilíbrio da vida.

Além de registrar conhecimentos ancestrais, o projeto procura fortalecer o protagonismo indígena na produção audiovisual e consolidar o Coletivo Ema’ē Jeree como núcleo formador de cineastas kaiabi. O cinema é utilizado como ferramenta de educação, memória e mobilização socioambiental, capaz de aproximar públicos indígenas e não indígenas e estimular uma reflexão sobre a responsabilidade humana, especialmente a dos não indígenas, no agravamento da crise climática.

A iniciativa também valoriza a língua kaiabi e expressões tradicionais como cantos, rituais, pinturas corporais e práticas ligadas às roças. O cuidado com o uso das imagens e com a representação dessas práticas demonstra que a comunicação indígena pode conciliar circulação pública, ética e respeito às decisões da comunidade. Em vez de adaptar a experiência kaiabi a uma linguagem externa, o filme utiliza o audiovisual para ampliar a presença de sua própria língua, temporalidade e visão de mundo.

O processo de realização produziu impactos dentro do próprio território. As discussões sobre as mudanças climáticas levaram o pajé Tuiaraiup Kaiabi a convocar uma reunião inédita entre os pajés kaiabi do Xingu para debater e rezar coletivamente em resposta ao “ararakup”, expressão relacionada à quentura do sol. O filme tornou-se, dessa maneira, um vetor de mobilização espiritual e política, aproximando gerações e articulando o xamanismo e o audiovisual como formas complementares de conhecimento, expressão e preservação da memória.

A obra também contribuiu para a autoestima da comunidade, movimentou a economia local por meio da aquisição de alimentos para as oficinas e inseriu jovens realizadores indígenas no circuito audiovisual. O curta foi selecionado para mais de 15 festivais, incluindo Olhar de Cinema, Forumdoc.BH, Planeta.doc, Mostra de Tiradentes, Curta Cinema, Ecofalante e Kanua, no Equador, e recebeu quatro prêmios. A diretora Kujãesage Kaiabi tornou-se uma referência do audiovisual indígena brasileiro, enquanto o coletivo permanece ativo na produção de novos filmes e no registro de saberes ancestrais.

Mais do que transmitir um alerta climático, Maíra Porongytá: o aviso do céu demonstra que os povos indígenas precisam ocupar também os espaços de produção e circulação das imagens. Ao unir sonho, espiritualidade, língua e formação técnica, a iniciativa transforma o cinema em instrumento de autonomia e continuidade cultural. O aviso apresentado pelo filme não se dirige somente ao povo Kaiabi: ele convida toda a sociedade a reconhecer outros modos de compreender o planeta e a assumir responsabilidade pela proteção das condições que sustentam a vida.

Acesse o trabalho na íntegra aqui

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