IndiGenAI: Povos Indígenas e o Bem Viver Digital, iniciativa apresentada por Alexsandro Cosmo de Mesquita, conquistou o segundo lugar na categoria Iniciativa de Educação Midiática do Concurso Dom Phillips e Bruno Pereira.
A iniciativa propõe uma reflexão crítica sobre a presença dos povos indígenas no ambiente digital e sobre os impactos das tecnologias, especialmente das ferramentas de inteligência artificial generativa, sobre seus direitos, conhecimentos, imagens e formas de representação. Em vez de tratar a tecnologia como um campo neutro, o trabalho evidencia que algoritmos e plataformas podem reproduzir desigualdades, reforçar estereótipos, falsificar realidades e explorar dados sem o consentimento das pessoas e comunidades envolvidas.
A experiência está articulada ao movimento do Bem Viver Digital. Em 2024, foi elaborado em Maringá, no Paraná, o primeiro manifesto dedicado ao tema. Em 2025, representantes dos povos Aymara, Tupi Guarani, Kaingang, Guarani/Kaiwá, Kariña, Mapuche, Palta, Potiguara, Tulián e Wichí reuniram-se na Aldeia Tabaçu Reko Ypy, em Peruíbe, no estado de São Paulo, para dar continuidade ao movimento e atualizar coletivamente suas propostas.
O trabalho questiona práticas de colonialismo digital que transformam conhecimentos, línguas, imagens, espiritualidades e expressões culturais indígenas em dados disponíveis para uso irrestrito por empresas e sistemas automatizados. Nesse contexto, a iniciativa defende que a coleta e o processamento dessas informações devem respeitar o consentimento, a autonomia e os direitos coletivos dos povos. O fato de um conteúdo estar disponível na internet não significa que possa ser apropriado, reproduzido ou incorporado a sistemas de inteligência artificial sem limites.
O manifesto reivindica um ambiente no qual as pessoas indígenas possam compartilhar aquilo que desejam sobre suas vidas e culturas sem sofrer assédio, discriminação ou exploração. Isso implica enfrentar discursos que negam a existência contemporânea dos povos indígenas, que os representam como figuras presas ao passado ou que reduzem suas culturas a objetos disponíveis para consumo. A educação midiática aparece, assim, como um caminho para identificar preconceitos, compreender o funcionamento das tecnologias e criar formas de participação digital mais seguras.
A iniciativa também chama atenção para os impactos ambientais das tecnologias digitais. Ao relacionar inovação, capitalismo e exploração territorial, o manifesto recorda que diferentes promessas de progresso já produziram consequências graves para os territórios ancestrais. Por essa razão, propõe que o desenvolvimento e o uso da inteligência artificial sejam avaliados também segundo seus custos ambientais, sociais e culturais, e não apenas por critérios de desempenho ou rentabilidade.
Entre as propostas apresentadas está a criação de códigos de ética e mecanismos de regulação voltados à privacidade, à proteção de dados e ao enfrentamento da apropriação cultural. O documento defende que os povos indígenas estejam representados nos espaços em que essas normas são discutidas e que seus representantes sejam indicados pelos próprios povos. Essa participação deve observar acordos, tratados, convenções e declarações internacionais relacionados à proteção dos conhecimentos tradicionais.
O trabalho defende, ainda, oportunidades de formação e participação indígena em todas as etapas do ecossistema tecnológico, do desenho de dispositivos à programação de softwares. A proposta não é apenas ampliar o acesso a ferramentas já existentes, mas criar condições para a autodeterminação e a autogestão digital. Isso inclui desenvolver redes sociais comunitárias, formar pessoas para reparar equipamentos nos territórios e estimular a criação de tecnologias próprias, culturalmente adequadas e ambientalmente sustentáveis.
A tecnologia é tratada como um recurso que deve estar a serviço das necessidades e dos desejos humanos e comunitários. O manifesto recusa a imposição de ferramentas digitais a pessoas que não as desejam e alerta para o risco de que essas tecnologias restrinjam outras formas de comunicação e convivência. Ao mesmo tempo, reconhece possibilidades positivas, como a educação a distância para jovens indígenas, desde que seu uso contribua para reduzir deslocamentos forçados e permita a permanência nos territórios.
A iniciativa sustenta que os próprios povos indígenas devem protagonizar a sistematização de seus saberes, ciências e tecnologias e decidir o que pode ser registrado, compartilhado ou protegido como propriedade intelectual coletiva. Essa perspectiva amplia o debate sobre soberania de dados ao reconhecer que determinados conhecimentos não pertencem a indivíduos isolados, mas a comunidades, territórios e redes de relações construídas entre gerações.
IndiGenAI: Povos Indígenas e o Bem Viver Digital demonstra que inclusão digital não pode significar apenas acesso a aparelhos e plataformas. Ela precisa envolver autonomia, participação nos processos de decisão, proteção contra abusos e capacidade de criar tecnologias orientadas pelos valores das próprias comunidades. Ao afirmar que o mundo digital também é território indígena, a iniciativa transforma a educação midiática em instrumento de autodeterminação, autodefesa e construção de um ambiente tecnológico mais justo.
