Em 2016, o tema escolhido para o Mulheres de Expressão foi o rádio. A ideia surgiu de um projeto elaborado para conhecer as dificuldades que enfrentam as mulheres comunicadoras no Nordeste brasileiro, em especial trabalhadoras do rádio por conta da incidência que esse veículo tem na região.

Em parceria com a Rede de Mulheres da AMARC – Associação Mundial de Rádios Comunitárias, a ARTIGO 19 realizou dois encontros com mulheres radialistas da região, um em Valente no interior da Bahia e outro em Recife na capital de Pernambuco. Ao todo, 25 mulheres participaram dos encontros, onde estiveram por dois dias discutindo temas relacionados à participação da mulher no rádio, trocando experiências e compartilhando quais os obstáculos diários que elas devem superar para exercerem o direito de se expressarem livremente.

Os tópicos a seguir resumem alguns dos principais temas discutidos nos encontros e propõem algumas reflexões sobre a importância do fortalecimento da presença da mulher na comunicação e como isso pode ser feito pela superação do machismo que existe nesse campo.

Rádios comunitárias

A maioria das participantes dos encontros atuam em rádios comunitárias, cujos desafios permearam as primeiras discussões dos grupos. No Brasil, a popularidade das rádios comunitárias entre as comunidades se deve em muito às facilidades técnicas e ao baixo custo de instalação do meio rádio, além de sua abrangência e universalidade.

É importante notar que as rádios comunitárias brasileiras iam surgindo justamente em regiões economicamente desfavorecidas e muitas vezes periféricas. Após uma rápida articulação, a comunidade já conseguia os recursos e o equipamento necessários para montar uma rádio de baixa potência: ali se formava um novo canal de informação e mais um espaço de articulação onde se desenvolviam as ações sociais locais. Tendo em vista que as figuras da própria região eram responsáveis pela locução e pela programação, o reconhecimento era imediato: vozes, sons e linguagem familiares, universo de sentidos semelhante, demandas comuns. Rapidamente essas emissoras foram crescendo em termos de audiência e relevância social, incomodando os grandes impérios de comunicação de massa.

No entanto, são muitos os problemas que as rádios comunitárias enfrentam para se estabelecerem no país. As políticas de fiscalizações desproporcionais e severas, aliadas à seletividade da legislação criminal, geram um contexto de criminalização das rádios comunitárias e de quem se comunica através delas. É preciso lembrar que existem muitos empecilhos legais, burocráticos e financeiros para que uma rádio comunitária possa se regularizar – muitas rádios estão há anos na fila para a tão sonhada outorga. Esta demora e desafios fazem com que muitas rádios entrem no ar de forma irregular, sofrendo uma série de medidas fiscalizatórias e de responsabilização. A maioria das decisões judiciais aplicam sanções criminais a radialistas. Ou seja, a maioria dos juízes entende que fazer comunicação comunitária é crime sem considerar todos os entraves ocasionados por parte do Poder Público. Este cenário é extremamente prejudicial ao exercício da liberdade de expressão dessas radialistas comunitárias e cria casos como o da radialista Núbia Silva, que enfrenta um processo judicial que a mantêm afastada dos microfones da rádio em que atua em Conceição de Coité na Bahia.

Em termos de participação feminina nas rádios comunitárias, as experiências compartilhadas nos encontros realizados pela ARTIGO 19 mostraram um cenário favorável ao empoderamento feminino. Como os processos nessas rádios são levados pelas comunidades, foi possível perceber efetiva contribuição feminina na condução das rádios, além de experiencias em que as estações são compostas e coordenadas na sua maioria por mulheres, como é o caso da rádio comunitária do Centro de Mulheres do Cabo e da Rádio Independência, ambas no estado de Pernambuco.

Algumas das radialistas relataram que não tinham essa liberdade e espaço de participação nas rádios comerciais em que já trabalharam anteriormente. Isso reforça a importância do fortalecimento da radiodifusão comunitária, espaços efetivamente elaborados e movidos pelos interesses das comunidades, como a massiva participação das mulheres na construção cotidiana dos meios de comunicação.

O conteúdo de gênero no rádio

Ainda que a participação das mulheres como profissionais no rádio seja fundamental e ponto de partida na luta pela igualdade de gênero na comunicação, essa presença não necessariamente resulta em conteúdos voltados à mulher e empoderamento feminino. Sem dúvidas a presença feminina na radiofusão é um passo importante para a concepção de uma rádio feminista, mas esse é um processo em construção que todavia enfrenta muitos desafios para se consolidar.

Um exemplo disso é que muitas das participantes relataram ter problemas para cobrirem temas historicamente vistos como masculinos, como esporte e economia – seja por falta de incentivo de colegas da equipe ou pela relação criada entre a perspectiva de gênero e determinados conteúdos, como beleza, moda, entre outros. As mulheres representam mais de 50% da população e sua perspectiva precisa ser inserida em todos os conteúdos que dizem respeito à vida em social. Se não há uma relação das mulheres com alguns conteúdos, ela precisa ser criada e fortalecida. A falsa impressão de que comunicadoras não se interessam por certos temas mascara, na verdade, a falta de espaço que as mesmas encontram para abordar determinados assuntos.

Iniciativas como campanhas que incentivem a inclusão da visão da mulher na comunicação, portanto, são de grande importância. Recentemente uma campanha organizada pela organização Think Olga criou a campanha Entreviste Uma Mulher, que consiste numa base de dados com mulheres especialistas sobre diversos assuntos para ser compartilhada entre jornalistas, incentivando a consulta e o diálogo com mulheres para produções jornalísticas. Projetos como esse fortalecem o espaço da mulher na comunicação e combatem a seletividade dos temas em decorrência do gênero dos indivíduos.

Outro exemplo da falta de autonomia para escolhas de conteúdo foram os inúmeros relatos de mulheres presentes nos dois encontros realizados pela ARTIGO 19 em parceria com a Rede de Mulheres da AMARC em Valente – BA e Recife – PE. Nesses encontros as participantes afirmaram terem ingressado no rádio por conta de suas vozes e muitas vezes convidadas por figuras masculinas. Essa relação, ainda que indireta, mostra um interesse da presença feminina no rádio que a relacione com esteriótipos de beleza e isso muitas vezes limitam a atuação dessas profissionais em seus veículos.

Por fim, é fundamental que as mulheres tenham espaço para discutir temas importantes relacionados ao seu gênero nos meios de comunicação. Algumas experiências positivas foram compartilhadas nos encontros sobre radialistas que atuam nessa perspectiva em suas rádios. Foram citados programas que tratam de temas como violência sexual, doenças sexualmente transmissíveis e outros temas tão caros às mulheres ao redor do Brasil e do mundo. Falar sobre tais assuntos em meios de comunicação de massa são fundamentais para informarem as mulheres, contribuindo no seu empoderamento e na luta pelos seus direitos.

Um exemplo interessante foi o das comunicadoras Denise Santos e Milena Andrade que tocam um programa em Teresina – PI sobre a vida de mulheres cegas, abordando temas cotidianos suas vidas e apresentado por cinco moças cegas, entre elas Denise. A possibilidade de que outras mulheres se identifiquem com o conteúdo abordado no programa é um verdadeiro exemplo de comunicação inclusiva e com perspectiva de gênero, além de possibilitar que mais pessoas conheçam a realidade das pessoas com deficiência audiovisual, proporcionando uma cultura mais inclusiva.

Violência de gênero

Nos encontros foram relatadas muitas dificuldades para efetivar a participação feminina na comunicação, em especial no rádio. Para ter uma ideia mais detalhada sobre essas questões, além da discussão em grupo proporcionada pelas dinâmicas das reuniões, a ARTIGO 19 aproveitou a oportunidade para aplicar um questionário individual a todas as participantes, a fim de se conhecer mais sobre as distintas formas de violência que essas moças encontram no exercício da comunicação e as motivações para tal violência. Embora o processo de análise desses dados e seu material definitivo ainda não esteja finalizado, já é possível adiantar alguns pontos importantes nessa publicação online.

Um dos pontos discutidos coletivamente e que também apareceu nos questionários respondidos pelas participantes foram questões relacionadas à violência sexual. Diversas são as fontes dessa violência e isso é o que torna substancial a presença desse tópico nessa publicação e o combate a todas as formas de violência sexual contra a mulher. Relatos relacionados à vida profissional e à vida pessoal demonstram que as mullheres são vítimas dessas violências em distintos ambientes, e que a luta pela igualdade de gênero e a segurança das mulheres precisa erradicar essa prática tão vil e machista da nossa sociedade.

Mulheres comunicadoras também estão expostas a práticas intimidadoras em decorrência da sua atuação em meios de comunicação. Relatos de perseguição de ouvintes e até mesmo de abusos e intimidações por parte de colegas de trabalho evidenciam que comunicadoras não estão somente expostas às vulnerabilidades a que estão todos os profissionais da comunicação em decorrência do exercício da liberdade de expressão, mas que também têm que enfrentar violências específicas de gênero por serem mulheres.

As violências dentro dos veículos em que as mulheres atuam é especialmente complicada porque muitas vezes ocorrem de maneira velada. Além disso, elas se encontram sem caminhos para denunciar ou recorrer dentro da própria estrutura de trabalho. Assim como a violência doméstica, a denúncia de pessoas conhecidas para autoridades é um processo complicado e marcado por questões sensíveis e até mesmo dificuldades afetivas para as vítimas.

Espaços seguros para as mulheres em seus ambientes de trabalho, ou mesmo espaços externos dedicados a esse tema em suas entidades de classe representativas, espaços femininos de maneira geral ou até mesmo grupos formados por mulheres próximas são fundamentais para o enfrentamento a questões relacionadas a violência contra a mulher. As mulheres precisam de espaços onde elas possam se sentir acolhidas, onde reconheçam certas violências que passam em suas vidas e a necessidade de entrentá-las. Nesse sentido, o encontro realizado pela ARTIGO 19 em parceria com a Rede de Mulheres da AMARC foi uma iniciativa importante na tentativa de proporcionar espaços de confiança como esses, onde as participantes puderam compartilhar experiências e se fortalecer coletivamente.

Rádio como ferramenta de transformação: Direitos sexuais e reprodutivos

Um dos pontos levantados pelas participantes do encontro sobre a importância da presença feminina no rádio é o protagonismo na abordagem de temas relevantes e fundamentais para as próprias mulheres. A falta desses conteúdos em todos os tipos de mídia contribui para um cenário de desinformação que prejudica as mulheres em muitos âmbitos, como a falta de conhecimento de seus direitos e até mesmo em termos de saúde preventiva.

Muitas das radialistas participantes do encontro têm programas em suas rádios que abordam essas temáticas, como direitos sexuais e reprodutivos. Elas também mencionaram a importância de que esses assuntos alcancem as mulheres de todas as classes sociais ao redor do país – e como o rádio contribui para a disseminação dessas informações. No entanto, também foram relatadas resistências das mais diversas para a inclusão desses conteúdos na programação.

Um exemplo de empoderamento feminino sobre questões relacionadas a direitos sexuais é o da radialista Maria Silene dos Santos. Ela foi diagnosticada com HIV há alguns anos e desde então passou a se dedicar a essa causa, tratando de pautas como a importância dos exames de diagnóstico e do tratamento para mulheres imunodeprimidas. Silene tem no rádio seu frequente aliado para alcançar cada vez mais mulheres e ajudar na conscientização as comunidades das rádios que visita sobre a importância de um olhar preventivo para o tema.

O incentivo para pautas femininas no rádio é um dos temas prioritários na luta pela igualdade de gênero na comunicação. Em um cenário onde mulheres aparecem de maneira esterotipada ou objetificada em variadas mídias, é fundamental que a mulher se identifique com a maneira como é representada. A participação de profissionais femininas na comunicação contribui para um cenário mais real, mais plural e que vá de encontro à funcionalidade dos meios de comunicação: temas de relevância social que informem e empoderem a sociedade.

Além disso, o gênero feminino representa metade da população mundial, e por isso as mulheres deveriam alcançar o mundo do trabalho da mesma maneira que os homens. Historicamente essa divisão nunca se fez igualitária, de modo que essa desiguldade de oportunidades contribuiu para um cenário de subrepresentação também no campo da comunicação. Em um contexto de luta por igualdade de oportunidades e de participação nos meios de comunicação, essa equidade se faz necessária também no conteúdo produzido e difundido por esses veículos.

Resistência: Cultura dos povos tradicionais nos meios de comunicação

Meios de comunicação plurais são a chave para a valorização e para uma melhor representação das diferentes culturas e realidades sociais. No entanto, não é isso o que ocorre historicamente no Brasil. Isso começa pela má distribuição dos meios de comunicação, que são privilégios de alguns, subrepresentando as variadas formas de expressão do país.

Nesse cenário de desigualdade representativa, as manifestações culturais dos povos originários do Brasil figuram como as mais desfavorecidas. Isso certamente é reflexo de outros fatores sociais e políticos que terminam por isolar essas populações em muitos aspectos, mas certamente a falta de espaço nas comunicações de massa representam um importante papel nesse contexto.

A apropriação dos meios de comunicação por comunidades originárias representa um importante papel de resistência e de permanência de suas culturas e costumes. Mulheres indígenas, quilombolas e de religiões afro-descendentes presentes no encontro organizado pela ARTIGO 19 em parceria com a Rede de Mulheres da AMARC são verdadeiros exemplos de luta por uma comunicação democrática e representativa.

Casos como o da Mãe Beth de Oxúm, mãe de santo de um terreiro em Olinda – Pernambuco que conta com a sua própria rádio comunitária, usufruindo desse espaço como uma oportunidade de levar aos seus conterrâneos músicas e expressões culturais das religiões de matrizes africanas. Isso demonstra que não faltam demandas culturais para a ocupação desses espaços.

Entretanto, muitas dessas comunidades encontram verdadeiros entraves para terem os seus próprios veículos de comunicação. As rádios comunitárias são opções mais viáveis financeiramente e tecnicamente, e por isso esas comunidades tradicionais muitas vezes optam por construírem suas próprias rádios. Mesmo assim, os empecilhos legais para a obtenção de uma outorga de rádio inviabilizam que essa opção se torne realidade.

Empoderamento tecnológico: O domínio dos equipamentos e a participação feminina

Historicamente as mulheres não ocupavam espaços de produção nos meios de comunicação – e embora esse cenário tenha sido transformado nos últimos anos, ainda permanecem alguns obstáculos para a plena ocupação feminina desses meios. No caso do rádio, inicialmente a inserção das mulheres contribuiu apenas para a continuidade de alguns esteriótipos femininos, desempenhando papéis ainda limitados, como a leitura de anúncios e determinados tipos de programa musicais, numa perspectiva de sensualizar a voz das locutoras e associá-las a padrões estéticos de beleza.

Com o passar dos anos, as mulheres foram ganhando autonomia nas rádios, conquistando espaços para os seus próprios programas e tendo maior flexibilidade na eleição dos temas que de que desejam tratar. Contudo, essa autonomia ainda encontra certa limitação e a mulher ainda é associada mais frequentemente a temas vistos como do “universo feminino”. Felizmente, essa perspectiva tem sido cada vez mais questionada e as mulheres têm lutado por um espaço nos programas que respeitem seus verdadeiros interesses.

Um resquício do predomínio masculino nas rádios que limita muito a participação da mulher é o domínio técnico sobre a aparelhagem necessária para a produção dos programas de rádio. Muitas mulheres se veem dependentes dos homens, nas figuras de operadores de mesa de som e técnicos de rádio, para elaborarem seus programas com a liberdade desejada.

Ainda, o domínio técnico não é uma questão de capacidade e sim de oportunidade. Como a divisão de conhecimento muitas vezes significa perda de poder, é comum relatos de mulheres radialistas sobre colegas de trabalho que se negam a ensiná-las sobre a operação dos equipamentos de rádio, de forma que elas terminam por depender de outras pessoas para editar e operacionar o seu trabalho. Desse modo, um passo crucial para o alcance da equidade de gênero na comunicação é a promoção integral de igualdade de gênero em termos de acesso ao processos necessários para o domínio pleno dos meios de comunicação.

Rede de mulheres comunicadoras: Experiências de fortalecimento e atuação em equipe

A experiência dos dois encontros de mulheres radialistas realizados no Nordeste pela ARTIGO 19 em parceria com a Rede de Mulheres da AMARC mostra a importância de espaços coletivos para discussões sobre dificuldades e desafios enfrentados pelas mulheres na comunicação.

Mais do que meramente os espaços em si, os encontros demonstram a importância de conectar mulheres e de fomentar uma perspectiva coletiva de enfrentamento dos desafios impostos pela inequidade de gênero, possibilitando redes de apoio para que as mulheres troquem experiências e exercitem a solidariedade.

A própria Rede de Mulheres da AMARC é uma experiência antiga que reúne uma série de iniciativas muito positivas para a atuação em conjunto de moças radialistas. O fato de se tratar de uma iniciativa nacional faz com que a rede reúna mulheres de diferentes partes do país. Além disso, a Rede da AMARC já articulou parcerias muito enriquecedoras para as mulheres radialistas. Uma delas foi uma experiência organizada pelo CFEMEA, que consistiu no envio de informações sobre a Conferência Mundial sobre as Mulheres de Pequim, em 1995, diretamente para as radialistas da rede, para que elas pudessem divulgar informações sobre a Conferência em seus programas e aprofundar o debate sobre os temas relacionados a gênero em âmbito local.

Iniciativas como essa demonstram que tais redes, além de servirem como um espaço seguro onde mulheres podem se conhecer, se identificar, exercitarem sororidade e pensarem coletivamente a superação de situações de vulnerabilidade e dificuldade, também terminam por influenciar diretamente o empoderamento das mulheres na comunicação.

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